VIDEOCIRURGIA AVANÇADA - NOVO PATAMAR NECESSÁRIO PARA O TREINAMENTO EM CIRURGIA MINIMAMENTE INVASIVA

por Prof. Dr. Miguel Nácul

Artigo recentemente publicado na revista Surgical Endoscopy, discute o treinamento para videocirurgia avançada, procedimento minimamente invasivo que utiliza as ferramentas da videocirurgia, como equipamentos e instrumentais, e que envolve habilidades complexas, em especial, suturas e anastomoses. Há alguns anos, a área médica conta com a simulação,  amplamente usada para ensinar e avaliar habilidades videocirúrgicas fundamentais. O desenvolvimento de habilidades “avançadas” é uma necessidade premente para cirurgiões, em especial aqueles em formação, para uma inserção em um mercado de trabalho cada vez mais solicitante e competitivo. No entanto, os atuais programas de simulação não atendem as necessidades para o aprendizado de habilidades e procedimentos videocirúrgicos avançados, mas o mercado de trabalho exige profissionais capazes de realizar procedimentos cirúrgicos de alta complexidade por técnicas minimamente invasivas.

De autoria de cirurgiões canadenses com atuação acadêmica em universidades e centros de simulação, o estudo buscou identificar as principais habilidades necessárias à realização de procedimentos videocirúrgicos avançados como base de conhecimento necessário para o desenvolvimento de um programa de treinamento. Entrevistas foram realizadas com cirurgiões assistentes e residentes em cirurgia geral, ginecologia e urologia, de forma presencial ou por videoconferência. Vinte e uma habilidades foram identificadas como importantes para a realização de procedimentos videocirúrgicos avançados. As habilidades mais comumente descritas pelo corpo docente foram: (a) sutura, (b) dissecção, (c) experiência na realização do procedimento, (d) retração e exposição, e (e) familiaridade com a anatomia videocirúrgica. Já as habilidades citadas pelos residentes foram: (a) sutura, (b) dissecção, (c) experiência na realização do procedimento, (d) posicionamento dos trocartes, e (e) fatores do paciente. Constatou-se uma grande diferença entre a importância que cirurgiões mais experientes atribuem à habilidade de “retração e exposição” em comparação com os residentes. Além disso, “ergonomia” também foi mencionada por professores mais frequentemente do que por residentes. Mesmo que a ergonomia possa ser um fator importante para o conforto do cirurgião e prevenção de lesões, também pode ser muito importante para a exposição e, portanto, ser um tópico essencial no treinamento.

O ensino de pós-graduação em cirurgia passou por muitas mudanças nos últimos anos. No passado, o foco era principalmente no treinamento em campo cirúrgico diretamente no paciente sob tutoria de profissional mais experiente, também conhecido como “método Halstediano”. Mesmo considerado eficiente e consagrado como padrão no ensino de cirurgiões em programas de residência médica, essa forma de treinamento trouxe desafios aos educadores cirúrgicos, havendo preocupações quanto à consistência da metodologia, principalmente no ensino de novas técnicas e táticas cirúrgicas baseadas em tecnologia, e, mais importante, em relação à segurança do paciente. Como resultado, o treinamento dos residentes evoluiu para se concentrar no desenvolvimento de competências com objetivos de aprendizagem específicos e melhores estratégias de avaliação. Uma das estratégias mais eficazes para atingir esses objetivos e obter competência é fornecer uma plataforma para praticar fora do ambiente clínico, usando simulação. Com isso, os residentes podem, posteriormente, atuar no ambiente clínico com um conjunto de habilidades básicas e essenciais já estabelecidas para melhorar. Este é o atrativo da simulação, fornecendo um currículo padronizado com oportunidades para os cirurgiões em treinamento praticarem repetidamente sem se preocupar com a segurança do paciente. Em videocirurgia, a simulação é a base fundamental do treinamento.

O problema é que cada vez mais procedimentos cirúrgicos complexos vêm sendo realizados por videocirurgia. Como resultado dessa mudança nas rotinas de prática, os residentes são expostos a casos videocirúrgicos “avançados” com mais frequência em seu treinamento. 

Uma das plataformas históricas para o ensino da videocirurgia e amplamente utilizada é o programa Fundamentals of Laparoscopic Surgery (FLS). No entanto, o FLS e outras experiências de treinamento simuladas têm se mostrado eficientes e eficazes para o ensino de habilidades videocirúrgicas básicas. Embora as habilidades básicas sejam a base de toda a videocirurgia, elas não são suficientes para realizar procedimentos mais exigentes de maneira ideal. Há uma lacuna entre as habilidades que são atualmente almejadas por tais programas educacionais e as habilidades necessárias para realizar videocirurgias mais complexas. Portanto, a incorporação de metodologias para o desenvolvimento de habilidades videocirúrgicas avançadas é o novo patamar a ser alcançado por profissionais e centros dedicados ao ensino da cirurgia. A identificação de habilidades-chave para a realização de procedimentos videocirúrgicos avançados pode fornecer os blocos de construção para o desenvolvimento de um programa de ensino e treinamento efetivo e acessível para a comunidade cirúrgica.

REFERÊNCIAS:

1.Bilgic E, Hada T, Dubé T, Valanci S, de Azevedo B, Feldman LS, Vassiliou MC, Fried GM. Defining the key skills required to perform advanced laparoscopic procedures: a qualitative descriptive study. Surg Endosc. 2021 Jun;35(6):2645-2659.

2.Rattner DW, Apelgren KN, Eubanks WS (2001) The need for training opportunities in advanced laparoscopic surgery. Surg Endosc 15:1066–1070.

3.Nepomnayshy D, Alseidi AA, Fitzgibbons SC, Stefanidis D (2016) Identifying the need for and content of an advanced laparoscopic skills curriculum: results of a national survey. Am J Surg 211:421–425.