VAMOS FALAR DE ASSÉDIO NO AMBIENTE CIRÚRGICO?

por Prof. Dr. Miguel Nácul

Artigo publicado recentemente na Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), expõe um tema delicado que merece e precisa ser discutido, no momento em que práticas de equidade requerem ampla disseminação: o assédio. As mulheres precisam ter o direito de exercer as atividades que desejarem, a despeito das diferenças biológicas.


O preconceito de gênero em Medicina é problema recorrente em muitos países especialmente nas especialidades cirúrgicas. Mesmo com o gradativo estabelecimento das mulheres na Medicina, o preconceito contra as mulheres que desejam serem cirurgiãs cresceu em escala exponencial ao longo da história. Ainda hoje, é comum as mulheres que escolheram essa especialidade terem de ouvir ao longo da vida profissional que “mulheres não podem/devem ser cirurgiãs”. Com tantos obstáculos, muitas mulheres desistem. Outras, no entanto, conseguem superá-los e marcarem presença, aproveitando-se das brechas encontradas em diferentes momentos históricos.


As autoras, cirurgiãs com atividades assistenciais e acadêmicas no Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG) e Rio Branco (AC) buscaram avaliar as taxas de percepção de assédio entre cirurgiãs e como isso poderia influenciar a formação e os sentimentos sobre a profissão ao longo da carreira. Uma pesquisa quantitativa e qualitativa (relatos pessoais) foi realizada por meio de questionário via Google Forms®️ enviado para todas as cirurgiãs registradas no Colégio Brasileiro de Cirurgiões e em grupo WhatsApp de cirurgiãs.


Duzentas e trinta e duas respostas foram recebidas (28,2%). A prevalência da percepção de assédio durante o treinamento ou vida profissional foi reportada por 49,1% das mulheres. As cirurgiãs com percepção de assédio positivo reportaram de maneira significativamente estatística terem recebido treinamento cirúrgico inferior ao que tinham almejado, durante a residência médica. Similarmente, essas também indicaram ter tido a sensação de que isso ocorreu por serem mulheres. Tal fato aconteceu no tratamento por parte dos colegas residentes do sexo masculino e por cirurgiões do corpo clínico, mesmo por parte de preceptores mulheres. Houve entre as mulheres com percepção de assédio a ocorrência de maior número de ameaças físicas e emocionais e menos oportunidades cirúrgicas por serem residentes do sexo feminino. A percepção de assédio causou maior dúvida se alcançariam o final do treinamento e se avaliariam fazer Cirurgia novamente. Cirurgiãs com percepção de assédio reportaram menor probabilidade de gratificação/tristeza que as não assediadas. Por fim, essas cirurgiãs tiveram impressão que a percepção do assédio melhorou ao longo do tempo, ou seja, a interpretação inicial do que seria assédio foi modificada pela experiência profissional.


Quando avaliadas médicas residentes, a percepção de não terem tido o treinamento adequado e sentirem tratadas de maneira diferente pelos cirurgiões do corpo clínico, foi 4,38 vezes maior. Além disso, relataram terem sido dez vezes mais expostas à violência física e 17,62 vezes à violência emocional. Também consideraram terem recebido menos oportunidades cirúrgicas durante o treinamento. Para este grupo, ter tido a percepção de assédio diminuiu em 54% a probabilidade de optarem novamente por uma residência em Cirurgia. Essas cirurgiãs também tiveram maior probabilidade (2,57 vezes) de perceber que a percepção de assédio melhorou ao longo da experiência cirúrgica.


A Cirurgia, especialidade considerada predominantemente masculina, tem sido ao longo de séculos escolhida por várias mulheres, que têm enfrentado inúmeros desafios. Dentre esses, a percepção de assédio é um fator de grande impacto na vida dessas profissionais. O estudo confirmou que a percepção de assédio é alta entre mulheres cirurgiãs. Ainda que atualmente haja mais mulheres estudantes de Medicina no Brasil, a força de trabalho feminina nas especialidades cirúrgicas, em especial, na Cirurgia Geral, continua muito baixa. A percepção de assédio e as dificuldades associadas podem ser uma das razões disso.


Nos últimos anos, vários estudos sobre a disparidade e a inequidade entre gêneros têm sido publicados no campo da Cirurgia, alguns com dados bastante alarmantes, concluindo que as cirurgiãs que sofrem assédio tendem mais ao suicídio e a síndrome de esgotamento (burn out). No século XXI parece absurdo que ainda haja a necessidade de discutir a percepção de assédio sofrido por cirurgiãs. Contudo, infelizmente, o mundo da Cirurgia ainda é extremamente masculino e as mulheres têm de enfrentar muito mais dificuldades para se imporem e serem respeitadas. Em várias instituições, as cirurgiãs ainda são vistas como “causadoras de confusão, problemáticas e difíceis de lidar”. Podem apresentar TPM e engravidar. Homens e mulheres são vistos de forma diferente por seus avaliadores: homens são descritos como tendo talento natural e serão naturalmente bem sucedidos.

Já o sucesso feminino é visto como fruto de trabalho árduo e apenas com potencial para o sucesso. Muitas mulheres mais adiante em suas carreiras abandonam a especialidade por se depararem com muitas dificuldades e barreiras para a ascensão profissional. Atritos com colegas, dificuldade de assumir posições de liderança, horas e volume de trabalho, assim como, falta de suporte são as principais causas dessa realidade. No estudo, as mulheres que se sentiram tratadas de forma desigual (62,1%) foram as que tiveram percepção de assédio moral e as que responderam que não fariam Cirurgia como especialidade novamente se tivessem conhecimento dessa dificuldade. É interessante ressaltar que 40,1% das profissionais do estudo responderam que em algum momento pensaram que não conseguiriam chegar ao final do treinamento. Apesar desse lado negativo, 81,9% das mulheres disseram que escolheriam novamente a Cirurgia como especialidade e, apesar de tudo, 88,4% estão felizes em ser cirurgiã. Para essas mulheres, ser cirurgiã é mais gratificante do que representa tristezas, ainda que 47,8% tenham afirmado que a percepção de assédio não mudou com o tempo.


Exemplos de modelos femininos podem exercer influencia para que as cirurgiãs em formação desenvolvam resiliência, prossigam suas carreiras e não se sintam prejudicadas. A Comissão de Mulheres Cirurgiãs do CBC foi criada com o intuito de discutir o assunto e fortalecer as cirurgiãs jovens, no sentido que as futuras gerações não se deixem abater e desistir da especialidade com a qual sonharam e sim vençam e se dediquem à Cirurgia com afinco e alma. As mulheres ainda representam a minoria nas especialidades cirúrgicas e este trabalho pode ser estímulo para futura equidade entre gêneros na Cirurgia.


As autoras concluem que, apesar das limitações metodológicas do estudo e seus vieses, o estudo demonstra claramente que a percepção de assédio ainda é altamente prevalente entre cirurgiãs e isso interfere na formação durante a residência e na tomada de decisões futuras, tal como a permanência na especialidade.




Referências:
1. Santos EG, Roque L, Maya MC, Moreira RC, Lima FL, Correia MITD. PERCEPTION OF HARASSMENT AMONG FEMALE SURGEONS. Rev Col Bras Cir. 2021 Aug 30; doi: 10.1590/0100-6991e-20213123.