Telecirurgia: um grande marco da cirurgia mundial

por Prof. Dr. Miguel Nácul

O dia 11 de setembro de 2001 ficará marcado na lembrança como o dia do ataque às torres gêmeas do World Trade Center em Nova York. Televisionado para bilhões de pessoas e com parte dos acontecimentos sendo assistido ao vivo, o atentado é um dos principais e mais significativos eventos do século XXI, tendo gerado consequências geopolíticas, econômicas e sociais que modificaram a humanidade e continuam influenciando ainda hoje em dezenas de países do mundo.

O que muitos não sabem é que o século XXI também presenciou outro grande evento na mesma cidade e apenas quatro dias antes do famoso “11 de Setembro”. The Lindbergh Operation”, a primeira telecirurgia transoceânica realizada no mundo, foi comandada pelo  cirurgião francês Jacques Marescaux e eletrizou o mundo cirúrgico. Sentado em um console robótico na cidade de Nova York, Marescaux removeu a vesícula biliar de um paciente em Estrasburgo, França – a mistura perfeita de tecnologia da informação e cirurgia. Assim como o voo solo de Lindbergh através do Atlântico revolucionou nosso pensamento, o mesmo aconteceu com a cirurgia de Marescaux, provando que as distâncias não eram mais um obstáculo na cirurgia. Em uma transmissão ao vivo direto de Estrasburgo, França (maior centro de treinamento em cirurgia da Europa), em julho último, Marescaux, fundador e diretor do IRCAD (Instituto de Treinamento em Técnicas Minimamente Invasivas e Cirurgia Robótica), contou esta interessante história.

Em 1992, a cirurgia enfrentou mudanças inevitáveis, passando da era industrial para a era do computador. Nesse contexto, Jacques Marescaux teve a ideia de criar um centro original de pesquisa e treinamento. Ele buscava, de forma inovadora, alinhar as técnicas cirúrgicas da época à tecnologia, cada vez mais difundida em diversos outros setores. Em 1994, o IRCAD foi inaugurado no Hospital Universitário de Estrasburgo. Desde a sua criação, o IRCAD ganhou fama mundial como um instituto líder em pesquisa e educação, um passo importante em direção ao futuro da cirurgia.

Nesta época, buscando um financiamento para um projeto de inovação em cirurgia, Marescaux concluiu que a robótica seria a chave para alcançar o recurso financeiro. Marescaux já possuía experiência de mais de 100 procedimentos robóticos utilizando as plataformas disponíveis na época. Assim, configurou-se a ideia da utilização de uma plataforma robótica para a realização de uma telecirurgia. Mas não seria qualquer telecirugia. Seria uma telecirurgia completa realizada por uma equipe de cirurgiões franceses localizados em Nova York em um paciente em Estrasburgo (a uma distância de vários milhares de quilômetros), usando soluções de telecomunicações baseadas em serviços de alta velocidade e uma plataforma robótica. Marescaux conta que muitas dificuldades tiveram que ser transpostas para a realização do procedimento. Talvez a maior dificuldade fosse a velocidade de transmissão de dados. Trabalho desenvolvido junto com as forças armadas americanas pelo Dr. Richard Satava, cirurgião americano famoso pelas pesquisas na área de inovação tecnológica e educação em cirurgia, já tinha demonstrado que, para uma precisa atuação à distância, não mais que 150 a 200 milissegundos de espera (delay) seriam aceitáveis para a segurança do procedimento. Neste sentido, a utilização de satélite para a transmissão seria impossível. A opção foi utilizar cabos submarinos de fibra ótica transoceânicos que uniam os Estados Unidos à Europa. O problema é que estes cabos teriam que ser alugados por um período mínimo de seis meses ao preço de um milhão de dólares! Neste momento, interferência do então presidente francês Jacques Chirac viabilizou o uso dos cabos sem custos para o IRCAD.

Foi a primeira vez na história médica que uma solução técnica se mostrou capaz de reduzir o atraso de tempo inerente às transmissões de longa distância o suficiente para possibilitar esse tipo de procedimento. O governo francês também manteve salas já desocupadas no edifício da France Telecom em Nova York apenas para a realização do projeto. O ambiente teve que ser adaptado para a colocação do robô. A paciente selecionada, feminina, de 68 anos e portadora de colelitíase sintomática não complicada, prontamente aceitou ser operada a distância. Treinamentos experimentais com suínos vivos foram realizados com sucesso.

Poucos dias antes da data prevista para a cirurgia, um novo obstáculo quase mudou a história. A Food and Drug Administration (FDA) proibiu a realização da cirurgia nos Estados Unidos. Novamente o governo francês entrou em campo, designando a sala da France Telecom como uma área do território da França em solo americano para viabilizar a cirurgia.

A operação foi realizada com sucesso no dia 07 de setembro de 2001 por Marescaux e sua equipe do IRCAD. O procedimento durou 45 minutos e transcorreu sem qualquer intercorrência. De Nova York, o cirurgião controlou os braços do Sistema Cirúrgico Robótico ZEUS, projetado pela empresa Computer Motion, para operar o paciente. Marescaux comentou que ao final da cirurgia um grande peso saiu de suas costas, pois a responsabilidade era gigantesca para que todo o evento fosse bem-sucedido.

O sucesso do projeto foi resultado de uma parceria estreitamente coordenada entre o IRCAD, a France Telecom, Computer Motion e EITS (Instituto Europeu de Telecirurgia.

Comentando sobre a cirurgia, Marescaux disse acreditar que a Lindbergh Operation foi uma demonstração da viabilidade de um procedimento cirúrgico totalmente seguro realizado remotamente. Ele acredita que a primeira operação transatlântica foi a complementação de uma revolução no campo da cirurgia. Em dez anos, a chegada da cirurgia minimamente invasiva com a introdução de videocâmeras para a realização de procedimentos no abdome e tórax sem necessidade de grandes incisões; a introdução da cirurgia assistida por computador, em que a inteligência artificial aumentava a segurança dos movimentos do cirurgião durante um procedimento, tornando-os mais precisos, ao mesmo tempo em que introduzia o conceito de distância entre o cirurgião e o paciente; e, finalmente, a demonstração da viabilidade de um procedimento transatlântico foram marcos ricamente simbólicos da globalização dos procedimentos cirúrgicos.

The Lindbergh Operation possibilitou imaginar que um cirurgião poderia operar um paciente em qualquer lugar do mundo. Marescaux compreendeu que o IRCAD deveria acoplar a educação e treinamento em cirurgia à inovação técnica e tecnológica. Para que isto fosse possível, o seu Instituto teria que incorporar ao quadro de profissionais da área médica especialistas em engenharia, tecnologia e comunicação. Definiu-se, então, o verdadeiro DNA do IRCAD: um centro direcionando à pesquisa e ao treinamento para o desenvolvimento de técnicas cirúrgicas menos invasivas, equipamentos e instrumentais.

O IRCAD persistiu inovando. Em abril de 2007, a equipe do Instituto em Estrasburgo realizou o primeiro procedimento cirúrgico endoscópico transluminal por orifício totalmente natural (N.O.T.E.S.) no continente europeu – Operação Anubis – por via vaginal.

O desenvolvimento paralelo de uma estrutura de treinamento foi a extensão lógica do trabalho inovador do IRCAD. Todos os anos, cerca de 6.200 cirurgiões de todo o mundo são treinados por uma equipe de 642 especialistas internacionais. O IRCAD tornou possível para cirurgiões de todo o mundo obter habilidades de alto nível e, como resultado, o Instituto manteve sua posição como embaixador da excelência francesa.


Referências:

    Marescaux J, et al. Transatlantic Robot-Assisted Telesurgery. Nature 2001;413:379–380.

    Ircad and Coffee. https://youtu.be/TFTdK4s1dpY

    https://en.wikipedia.org/wiki/Lindbergh_operation

    https://en.wikipedia.org/wiki/Jacques_Marescaux

    www.websurg.com