Simulação médica em tempos de pandemia

por Prof. Dr. Miguel Nácul

Por Dr. Miguel Nácul (Coordenador Médico - Instituto Simutec) e  Patricia Ribeiro (Gerente de Simulação e Treinamento - Instituto Simutec)

Em um momento de diminuição muito significativa da atividade cirúrgica, restrita a urgências e casos eletivos não postergáveis (como cirurgias oncológicas), alguns tipos de simulação surgem como uma alternativa efetiva para manter o aprendizado durante a pandemia. Iniciativas de grandes empresas que fabricam simuladores, inclusive têm oferecido soluções de ponta feitas para auxiliar na triagem e monitoramento de pacientes acometidos com o COVID-19. Essas empresas empregam o uso da realidade virtual no desenvolvimento de simuladores, o que permite uma resposta rápida para desenvolvimento de programas para treinamento de médicos que estão começando a lidar com o problema, baseado na experiência de países que estão enfrentando a epidemia a mais tempo.

Neste momento em que o foco é o atendimento de pacientes suspeitos ou portadores do COVID-19, a simulação presencial ou através de imagens, vídeos ou ambientes virtuais tem sido utilizada para o treinamento de profissionais de saúde para a triagem e atendimento de pacientes externos, pacientes internados com quadros clínicos menos graves e também em situações em centro de terapia intensiva. É evidente que, dentro do possível, deve ser evitado treinamentos presenciais principalmente de grandes grupos para evitar junção de pessoas e pelo tempo necessário para o treinamento de muitas pessoas em pequenos grupos. Nesse quesito, a realidade virtual vem novamente se mostrar uma ferramenta que pode garantir o treinamento de forma segura e eficaz, uma vez que simuladores de habilidades, como aqueles para procedimentos minimamente invasivos, ultrassom etc., permitem sessões individuais podendo ser isolados, garantindo assim a segurança daqueles em treinamento.

Outras aplicações em realidade virtual incluem ferramentas digitais, como jogos, que permitem uma completa imersão para atendimento de pacientes virtuais, que podem ser acessados de aparelhos celulares, tablets e computadores pessoais de qualquer lugar, garantindo o cumprimento das recomendações dos órgãos competentes e mantendo o aprendizado durante o isolamento social.

Essa tecnologia, bem como outros tipos de ferramentas digitais tem grande potencial para auxiliar o treinamento de estudantes e profissionais da área de saúde neste momento, principalmente no preparo para o enfrentamento de situações relacionadas a pandemia de COVID-19. A utilização de tecnologias de informação para a troca de conhecimentos e experiências aliada ao desenvolvimento de programas de computador que criam ambientes virtuais para treinamento de profissionais da área de saúde estão ajudando muito neste momento complexo e globalmente presente na área da saúde. A Society for Simulation in Healthcare através de suas mídias sociais tem debatido o tema COVID-19, abrindo sua plataforma na internet para troca de experiências, programas e técnicas de simulação para o melhor treinamento de profissionais de saúde das várias áreas no combate a pandemia. 

Dentre os principais focos de treinamento que são necessários nesse momento e que utilizam a simulação como base pedagógica pode-se citar:

- Utilização correta dos equipamentos de proteção individual (EPI) - pode ser treinada através da simulação presencial ou através de imagens ou vídeos ou ainda através de jogos reais (serious games).

- Utilização de manequins de média e alta fidelidade para o treinamento de situações como o uso da posição pronada em pacientes com COVID-19, entubados e necessitando ventilação mecânica. Esta posição parece favorecer o processo respiratório em pacientes graves, sendo uma técnica relativamente nova e que precisa ser mais bem dominada tanto pelo médico intensivista como pela equipe de enfermagem. Outra situação favorável a ser treinada em manequins é entubação traqueal com seqüência rápida, também necessária em pacientes com COVID-19. Evidentemente que treinamentos com simuladores físicos devem estar associados a cuidados muito rigorosos de limpeza e higiene, além de ser realizados em pequenos grupos paramentados de forma adequada para prevenir contaminação entre os treinandos e tutor.

- Substituição de casos reais por casos clínicos simulados para a manutenção das atividades discentes para estudantes de enfermagem e medicina afastados do convívio hospitalar durante a pandemia.

Outra estratégia que vem sendo desenvolvida pelas empresas que atuam na área de simulação médica é o desenvolvimento de cenários virtuais da infecção COVID-19 que possibilitem treinamento de situações como identificação de histórico médico e co-morbidades nos pacientes, treinamento de fluxos pré e intra-hospitalares, aplicação das diretrizes do Center for Diasease Control americano (CDC), manutenção de precauções para prevenção de infecções, aplicações de protocolos para reanimação cardiorrespiratória cerebral e para suporte ventilatório, entre outros.

Em realidade virtual podemos citar o desenvolvimento de programas de triagem e monitoramento de pacientes com COVID-19 via ultrassom pulmonar point of care e para o treinamento de procedimentos de colocação de cateter de artéria pulmonar, pericardiocentese e bomba de balão intra-aórtica à beira do leito, para evitar o risco infeccioso de transportar pacientes das enfermarias para os laboratórios de cateterismo.

Técnicas de simulação podem abordar questões éticas fundamentais no atendimento a pacientes como a escolha de tratamentos em situação de colapso do sistema de saúde, Outra situação é o apoio psicológico aos profissionais de saúde expostos a situações limites no atendimento a pacientes graves  e que envolvem um risco profissional acima do normalmente seria um ótimo tópico para perguntas.

A simulação, em especial a realizada em ambiente virtual, permite, ainda, a repetição do treinamento até a proficiência, a qual é determinada por critérios de avaliação objetivos e evita a necessidade de recursos físicos, principalmente EPIs que podem ser reservados para o atendimento real, o que diminui o custo do treinamento e destina os recursos para os locais onde eles estão sendo realmente necessários, e que no cenário atual é de extrema relevância tanto para manter os profissionais na linha de frente atualizados com as melhores e mais rápidas condutas de manejo quanto para aqueles que não podem ajudar, mas necessitam manter seu treinamento.