Setembro Verde: impacto da pandemia na captação e doação de órgãos

por Prof. Dr. Miguel Nácul

Se todo mês tem uma cor, setembro é verde! O SETEMBRO VERDE é um período dedicado ao esclarecimento da população sobre a importância da doação de órgãos. O ponto alto da campanha aconteceu no dia 27, quando o país comemorou o “Dia Nacional da Doação de Órgãos”. Nas duas semanas que antecedem a data, o governo promove, desde 2007, ações de conscientização sobre o tema.

Embora mais de 45 mil pessoas ainda aguardem na fila de espera para um transplante, campanhas como o Setembro Verde têm dado resultados. Antes da pandemia, o número de transplantes de órgãos vinha crescendo no Brasil. Nos últimos dez anos, o Brasil testemunhou um aumento significativo no número de procedimentos realizados. O país saltou de 6.426 cirurgias em 2010 para 9.212 transplantes (coração, fígado, intestino, pâncreas, pulmão e rim) em 2019, um incremento de 43,3%. Em 2019, a taxa de aumento foi de 2,4%, o que corresponde a 17 doadores para cada milhão de habitantes. Até 2021, a meta do Ministério da Saúde é atingir a marca de 20 doadores.

A COVID-19 impôs uma dura realidade para os pacientes que dependem de um novo órgão. De acordo com o Registro Brasileiro de Transplantes, a taxa de doadores efetivos caiu 6,5% no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2019. Quando se confrontam os números de doadores no primeiro e no segundo trimestres de 2020, a queda é ainda mais expressiva: 26,1%. A Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) analisou o impacto da pandemia sobre os procedimentos realizados no primeiro semestre. Em relação ao mesmo período ano passado, caiu o número de transplantes de fígado (6,9%), rim (18,4%), coração (27,1%), pulmão (27,1%), pâncreas (29,1%) e córneas (44,3%). A ABTO classifica a situação como “muito preocupante” e projeta um cenário dramático até o final do ano: o Brasil deve realizar 3.621 cirurgias em 2020, uma queda de 60,6% em relação a 2019. 

A COVID-19 e as medidas de combate baseadas em restrição de circulação de pessoas e isolamento social determinaram uma impressionante diminuição no atendimento às doenças de forma geral, impactando a doação/captação de órgãos e realização de transplantes. As explicações são múltiplas conforme a ABTO: diminuição (ou suspensão) de cirurgias eletivas, medo de pacientes e de doadores de se contaminarem, falta de leitos de UTI (UTIs exclusivas para COVID-19) e suspensão de vôos para transportar órgãos. Os critérios para validação das doações e coleta dos órgãos ficaram mais difíceis. Segundo diretriz da ABTO é desaconselhável que seja aceito para transplante órgãos de um doador que teve morte cerebral em uma UTI onde havia pacientes com COVID-19. As equipes das organizações de procura de órgãos não vão mais aos hospitais, realizando apenas abordagens telefônicas.Cada tipo de transplante possui diferentes características, sendo que alguns deles podem ser postergados em situações não favoráveis, como no caso da pandemia. Por outro lado, para outras pessoas necessitadas, o risco de não fazer o transplante é o preço da vida. Um dado positivo é que a recusa das famílias para a doação caiu significativamente (para cerca de 20%), de acordo com a Universidade de São Paulo (USP), provavelmente por sentimento de solidariedade que tende a vir à tona em momentos de crise como estamos vivenciando. 

É fundamental reforçar a importância da doação de órgãos, de deixarmos nossa vontade explícita a nossos familiares. Uma recusa de doação pode significar a perda de até 14 vidas em uma cadeia de benefícios. Por isso, torna-se tão importante que nos casos em que haja possibilidade de doação, exista a conscientização de que este ato de amor é, no cenário atual, ainda mais importante para salvar vidas, de verdade!