Seis medidas para derrotar o Coronavírus!

por Prof. Dr. Miguel Nácul

Texto adaptado de: Ten Weeks to Crush the Curve; Harvey V. Fineberg, M.D., Ph.D.; editorial publicado em 01 de abril 2020 no NEJM.org. DOI: 10.1056/NEJMe2007263

Citando o início do discurso do Dr. Harvey V. Fineberg, o Presidente americano, Donald Trump, disse que estamos em guerra com o Coronavírus. “É uma guerra que temos que lutar para vencer!”, publicado no editorial no início deste mês no New England Journal of Medicine, uma das mais importantes revistas científicas do mundo, o Dr. Hervey Fineberg do National Academies Standing Committee on Emerging Infectious Diseases and 21st Century Health Threats propõe uma tática para não só aplainar a curva de infecção pelo Coronavírus, mas acabá-la de vez! E que seria possível fazer isto em 10 semanas!

Uma das maiores polêmicas em relação as medidas para enfrentamento da pandemia do COVID-19 são sobre o tipo e o tempo de distanciamento social que a população deve respeitar. O tema se mostrou tão controverso que pauta discussões calorosas nas redes sociais e tem sido utilizado com um viés político importante em vários países, incluindo o Brasil. A razão principal é que distanciamentos sociais mais radicais como confinamentos, quarentenas ou lock-downs completos tem extraordinária repercussão econômica, social, mental e física tanto individualmente como para a comunidade como um todo.

O plano parte da necessidade de identificar onde o vírus se esconde, a rapidez com que ele se move, onde ele é mais ameaçador e qual é a sua vulnerabilidade. Assim, poderia se energizar a economia sem colocar vidas adicionais em risco. Dr. Hearvey, de forma confiante e otimista, defende seis medidas para mobilizar e organizar os EUA para derrotar o Covid-19 até o início de junho de 2020.

1. Estabelecer um comando unificado nacional e local representativo e reconhecido acima de interesses e pressões políticas para determinar estratégias de isolamento, quarentena, lock-down de acordo com a disseminação local da doença

2. Disponibilização de milhões de testes diagnósticos. Nem todo mundo precisa ser testado, mas todos com sintomas sim. A nação precisa se equipar para realizar milhões de testes de diagnóstico nas próximas 2 semanas. Esta foi a chave para o sucesso na Coréia do Sul. Toda decisão sobre o gerenciamento de casos depende de uma sólida avaliação médica e dos resultados dos testes de diagnóstico. Sem isto, não há como rastrear o escopo do surto e traçar medidas para isolamento ou retorno a atividades das pessoas.

3. Fornecer equipamentos de proteção individual para todas as equipes para evitar a contaminação dentro dos centros de saúde. Quem está na linha de frente cuidando de pacientes e testando para infecção precisa ser protegido. Não se enviam soldados para a batalha sem coletes balísticos. Profissionais de saúde nas linhas de frente desta guerra não merecem menos

4. Dividir a população em 5 grupos: infectados, suspeitos, contatos de doentes, pessoas que não sabem se tiveram contato e os imunes (já tiveram a doença). Cada grupo tem uma estratégia discriminada conforme sintomas, exames laboratoriais e de imagem, história de viagem e exposição a pacientes ou pessoas contaminadas e, em especial, testes para o vírus (por biologia molecular ou sorologia) para identificar aqueles que pertencem em cada um dos quatro primeiros grupos. A partir daí deve-se hospitalizar aqueles com doença grave ou com alto risco. Estabelecer centro de atendimento e enfermarias utilizando centros de convenções ou outros espaços vazios disponíveis para cuidar de pessoas com doença moderada e com baixo risco. O isolamento destes pacientes diminuirá a transmissão para membros da família. Converter hotéis em centros de quarentena para abrigar aquelas pessoas expostas, separando-as da população por um período de pelo menos duas semanas; este tipo de quarentena permanecerá prática até e a menos que a epidemia exploda em uma determinada cidade ou região. Ser capaz de identificar se o quinto grupo (aqueles que foram previamente infectados) efetivamente se recuperaram e estão adequadamente imunes. Isto requer desenvolvimento, validação e implementação de testes baseados em anticorpos. Esta atitude permitiria reiniciar partes da economia com mais rapidez e segurança.

5. Inspirar e mobilizar o público. Neste esforço, todos têm um papel a desempenhar. Desencadear a engenhosidade americana na criação de novos tratamentos e uma vacina, além de proporcionar uma maior variedade e número de testes de diagnóstico. Usar o poder de tecnologia da informação, mídias sociais, inteligência artificial e computação de alta velocidade para conceber novas soluções. Esses esforços devem ser intensificados. Todos podem ajudar a reduzir o risco de exposição e apoiar seus amigos e vizinhos neste momento crítico. Colocar máscaras cirúrgicas e desinfetante para as mãos para todas famílias americanas. Se todo mundo utilizar uma máscara cirúrgica fora de casa, aqueles que forem infectados pré-sintomáticos terão menor chance de espalhar a infecção para outras pessoas. E se todo mundo usar uma máscara, não haverá preconceito ou estigma sobre este ato.

6. Aprender enquanto pratica-se em tempo real a pesquisa. O atendimento seria muito melhorado caso se desenvolvesse um tratamento antiviral eficaz e todas as opções plausíveis devem ser investigadas. Isto foi feito com o HIV. Agora, precisa ser feito o mais rápido com o SARS-CoV-2. Os médicos precisam de melhores preditores de prognóstico dos pacientes para identificar se a doença é propensa a evoluir rapidamente ou quem pode morrer. Decisões como estas tendem a moldar a resposta da saúde pública e podem guiar o reinício da economia. E precisam serem guiadas pela ciência!

Além disso, Dr. Hearvey ressalta a necessidade de equipar emergencialmente os hospitais e aumentar o número de leitos para abrigar a demanda. Neste sentido, é fundamental a mobilização da indústria para produzir a estrutura necessária.  Ele conclui dizendo que se estas medidas forem implementadas, é possível aliviar os americanos de luto e perdas evitáveis, além de desempenhar o importante papel na luta global contra Covid-19, e estar em uma posição mais forte para ajudar outros países. Se os Estados Unidos persistirem com meias medidas contra o Coronavírus, corre o risco de sobrecarregar a economia a longo prazo, gerar consumidores ansiosos, doença, custos médicos mais altos e restrições persistentes à atividade comercial.

O esforço para superar esta pandemia vai gerar um legado para um melhor enfrentamento do Coronavírus ao longo do tempo, além de outras ameaças emergentes no século 21. Uma vacina segura e eficaz ajudará a proteger todos e servir como baluarte contra a reintrodução do vírus de outras partes do o mundo. Revigorando a infraestrutura de saúde pública, fortalece-se em nível local, estadual e federal a capacidades para responder a ameaças futuras. Conceber modelos preditivos precisos para infecções irá melhorar muito a preparação para outras epidemias e pandemias emergentes.

Os americanos devem forjar uma estratégia para derrotar o Coronavírus e abrir o caminho para o renascimento econômico. Assim como o editorial objetiva estimular cada país a pensar em soluções conforme suas peculiaridades locais, pensando sempre no binômio saúde e economia como indissociáveis é necessário que os governantes de todos os países deixem o viés político de lado e trabalhem em conjunto pensando no bem comum.