Saúde mental e a Covid-19 (parte I)

por Prof. Dr. Miguel Nácul

Desde que o primeiro caso da nova doença do Corona vírus (COVID-19) foi diagnosticado em dezembro de 2019, o vírus varreu o mundo e galvanizou uma ação global. Esforços sem precedentes foram dispendidos para instituir a prática do distanciamento físico (chamado na maioria dos casos de distanciamento social) em países de todo o mundo, resultando em mudanças nos padrões comportamentais nacionais e em paralisações do funcionamento do dia-a-dia da sociedade. De uma forma repentina, pessoas tiveram que permanecer em casa, voluntariamente ou até (em alguns países) de forma obrigatória, afastados de suas atividades normais e de seus parentes e amigos. Pacientes perderam suas consultas, exames, cirurgias, muitas agendadas há meses. De uma hora para outra, os hospitais se transformaram em um local perigoso, cheios de vírus, que as pessoas deveriam permanecer longe, exceto se estivessem morrendo. Manchetes aterrorizantes, continuadamente repetidas junto com o “fique em casa” contribuíram para a criação de uma situação muito danosa à saúde mental das pessoas, tema que começa a ser mais debatido quando as curvas de contaminação começam a cair em grande parte do mundo ocidental.

Como a pandemia associada ao Corona vírus persiste, é normal sentir quantidades crescentes de estresse e uma sensação de perda de esperança. O medo de contrair o vírus, o estresse de ficar confinado por um longo período e sem efetivamente saber até quando, pode ter um preço alto - tanto física quanto emocionalmente. Embora o distanciamento social seja uma tática fundamental para mitigar a propagação da doença, traz consequências para a saúde mental e o bem-estar em curto e longo prazo. Essas consequências são de importância suficiente para que sejam necessários esforços imediatos focados na prevenção e intervenção direta para lidar com o impacto da pandemia na saúde mental individual e da população.

Pacientes idosos ou com comorbidades, considerados de maior risco de desenvolver as formas da grave da doença, são os mais afetados. Nesta população, o confinamento doméstico e o isolamento de familiares e amigos tendem a ser maior.

A literatura sobre as consequências para a saúde mental das epidemias relaciona-se mais às sequelas da própria doença (por exemplo, mães de crianças com síndrome congênita do Zika Vírus) do que ao distanciamento social. No entanto, desastres em larga escala, sejam por trauma (por exemplo, o ataque ao World Trade Center em 2001 ou tiroteios em escolas nos Estados Unidos), naturais (por exemplo, furacões) ou ambientais (derramamento de óleo pela empresa Deepwater Horizon no Golfo do México em 2010), são quase sempre acompanhados por aumentos na depressão, transtorno de estresse pós-traumáticos (TEPT), transtorno por uso de substâncias ilícitas ou alcoolismo, além de uma ampla gama de outros doenças mentais e comportamentais, violência doméstica e abuso infantil. Acredita-se que em torno de 5% da população afetada pelo furacão Ike em 2008 atendeu aos critérios diagnósticos para transtorno depressivo maior um mês após a passagem do furacão. Um em cada dez adultos na cidade de Nova York mostrou sinais do distúrbio nos meses seguintes aos ataques das torres gêmeas no dia 11 de setembro 2001 e quase 25% dos nova-iorquinos relataram aumento do uso de álcool. A epidemia de SARS de 2002 na China também foi associada a aumentos no TEPT, estresse e sofrimento psicológico em pacientes e médicos. Para esses eventos, o impacto na saúde mental pode ocorrer logo após o evento e depois persistir por longos períodos.

É importante salientar que além de transtornos mentais, medidas extremas de isolamento social tendem a gerar outras doenças ou situações clínicas como obesidade, sedentarismo, déficit de vitamina D, entre outras. A imunodepressão gerada aumenta o risco de desenvolvimento ou piora de doenças. Manter os bloqueios por muitos meses principalmente sem perspectiva clara de término pode ter consequências ainda piores do que uma onda epidêmica que segue um curso agudo. O foco na proteção de indivíduos suscetíveis pode ser preferível a manter os bloqueios em todo o país a longo prazo.

Não podemos esquecer que a inevitável recessão econômica também afeta diretamente a população. Muitas pessoas perderam e perderão seus empregos e renda. 

Portanto, no contexto da pandemia do COVID-19, parece provável que haverá aumentos substanciais em ansiedade e depressão, uso de substâncias ilícitas e álcool, solidão e violência doméstica. Com as escolas fechadas, há uma possibilidade muito real de uma epidemia de abuso infantil.

O QUE FAZER

Três ações são sugeridas para o enfrentamento da inevitável piora das condições de saúde mental e sequelas associadas, que são as consequências dessa pandemia.

1 - Planejar a inevitabilidade da solidão e suas seqüelas à medida que as populações se isolam física e socialmente e desenvolver maneiras de intervir. O uso de tecnologias digitais pode reduzir a distância social, mesmo enquanto medidas físicas de distanciamento estão em vigor. Estruturas normais nas quais as pessoas se reúnem, sejam locais de culto, academias ou estúdios de ioga, podem desenvolver atividades on-line em um horário semelhante ao previamente realizado antes da pandemia. Empresas podem garantir que cada funcionário seja contatado durante a semana de trabalho, por meio de um supervisor ou sistema de amigos, apenas para manter um convívio social. O alcance que envolve voz ou vídeo é superior ao email e às mensagens de texto. Esforços extras devem ser feitos para garantir conexões com pessoas tipicamente marginalizadas e isoladas, incluindo idosos, sem-teto e pessoas com doença mental. As mídias sociais também podem ser usadas para incentivar grupos a se conectarem e até para direcionar indivíduos para apoio à saúde mental. Essas plataformas podem fornecer contato regular com indivíduos e permitir que as pessoas compartilhem com outras pessoas informações sobre seu bem-estar e necessidades de recursos. Mesmo com todas essas medidas, ainda haverá segmentos da população solitários e isolados. Isso sugere a necessidade de abordagens remotas de triagem para solidão e condições associadas de saúde mental, para que o apoio social possa ser fornecido. Desenvolvimento e implementação de rotinas, especialmente para crianças que estão fora da escola, garantindo que tenham funções determinadas em casa e rotinas de estudo regular parece ser uma ação importante. Os substitutos online das rotinas diárias, como mencionado acima, podem ser extremamente úteis, mas nem todas as crianças têm acesso a tecnologias que permitem conectividade remota.

2 - Desenvolver mecanismos de vigilância, denúncia e intervenção em relação a violência doméstica e abuso infantil. Indivíduos em risco de abuso podem ter oportunidades limitadas de denunciar ou procurar ajuda em situações que exigirem uma coabitação prolongada em casa e limitarem movimento para fora de casa. Os sistemas precisarão equilibrar a necessidade de distanciamento social com a disponibilidade de lugares seguros para as pessoas em risco e os serviços sociais precisarão ser criativos em suas abordagens para acompanhar o problema.

3 - Reforçar o atendimento na área da saúde mental em preparação aos inevitáveis ​​desafios precipitados pela pandemia do COVID-19. Isso exigirá que a estrutura do sistema de saúde esteja bem organizada para prestar esse atendimento aos pacientes, desde a triagem ao transbordamento de doenças mentais que inevitavelmente emergirão dessa pandemia. A ampliação do tratamento em meio à crise exigirá um pensamento criativo. O uso da telemedicina à saúde mental com a prestação de cuidados por meio de plataformas tecnológicas serão componentes importantes do tratamento tanto para o gerenciamento de casos agudo como para o suporte de rotina. Os sistemas de saúde, tanto do setor público quanto do privado, precisarão desenvolver mecanismos para reabastecer e fornecer medicamentos essenciais, incluindo medicamentos psiquiátricos.

CONCLUSÃO

A pandemia mundial do COVID-19 e os esforços para contê-la representam uma ameaça única. Devemos reconhecer a pandemia que a seguirá rapidamente - a das doenças mentais e comportamentais - e implementar as etapas necessárias para enfrentá-la e controlá-la. Cabe as entidades médicas e aos governos desenvolverem mecanismos de comunicação e educação no sentido de conscientizar a população da importância da manutenção de cuidados preventivos e terapêuticos da saúde mental. Além disso, também será fundamental planejar maneiras de diminuir as repercussões econômicas da pandemia e a retomada gradual da normalidade social, obviamente sem negligenciar o combate ao COVID-19.

BIBLIOGRAFIA:

Galea S, Merchant RM, Lurie N. The Mental Health Consequences of COVID-19 and Physical Distancing: The Need for Prevention and Early Intervention [published online ahead of print, 2020 Apr 10]. JAMA Intern Med. 2020;10.1001/jamainternmed.2020.1562.