Reciclar o conhecimento é essencial

por Prof. Dr. Miguel Nácul

Diariamente somos engolidos por novidades tecnológicas que interferem nas nossas rotinas pessoais e profissionais. E, para não ficar olhando pelo retrovisor é preciso agilidade e renovação. De olho na ampulheta do conhecimento, precisamos encarar o desafio do half-life, que no português significa meia-vida. É a mais nova tábua de salvação para não ficar rapidamente obsoleto, conforme alerta Cristiano Kruel, formado em Ciência da Computação, especialista pela FGV, MIT, IESE e Universidade do Texas em temas de inovação e tecnologia e atual diretor de inovação na empresa StartSe.


Cristiano Kruel defende que, independentemente de status, condição financeira ou experiência acumulada, é necessário que a pessoa ou o profissional se renove frequentemente, pois do contrário terá muitas dificuldades para entender e enfrentar o futuro. 

Em física, half-life é o tempo necessário para que um material perca 50% da sua quantidade inicial. Em medicina, o conceito envolve o tempo gasto para que a concentração plasmática de um fármaco no organismo se reduza à metade. Se extrapolarmos o conceito para conhecimento, a pergunta que Cristiano Kruel nos faz é quanto levará para “o que você sabe” valer a metade do que vale agora. Isto seria a meia-vida do conhecimento, ou o half-life of knowledge. Num cotidiano de tantas descobertas, aceleradas transformações, inovações e mudanças, fica claro que a meia-vida do nosso conhecimento está encurtando.

Didaticamente o autor ressalta que, provavelmente, os saberes de hoje valem menos que no dia anterior. Pensamento que deve perturbar a maioria das pessoas, uma vez que fomos ensinados a acumular conhecimento e não renová-lo constantemente. Frente a esta situação, é muito importante que ao invés de desenvolver ansiedade por “não saber as coisas”, devemos alimentar curiosidade de querer aprender novas coisas. Diante disso devemos ficar felizes com a quantidade de coisas que ainda podemos aprender. Apesar dos problemas enfrentados de uma maneira geral no âmbito da educação, o conhecimento está cada vez mais democrático, disponível e acessível a todos.

Na opinião do autor, o antídoto para lidar com os riscos do half-life of knowledge é o lifelong learning combinado com o continuous reskilling, ou seja, formação e requalificação contínuas. Estas últimas expressões significam aprender a vida inteira e permanentemente renovar as nossas habilidades. No entanto, além de expandir o aprendizado, precisamos também desenvolver habilidades complementares, visto que as inovações tecnológicas estão ocupando postos anteriormente criados apenas para humanos capacitados. É a máquina se sobrepondo ao homem, o que comprova a necessidade dos profissionais se tornarem mais híbridos. 

A empresa Burning Glass Technologies, que desenvolve software analítico e especializada em oferecer análises do mercado de trabalho que capacitam empregadores, trabalhadores e educadores a tomar decisões baseadas em dados, desenvolveu uma interessante pesquisa. Foram analisados mais de um bilhão de ofertas de emprego e currículos em mais de um milhão de empresas ao redor do mundo. Resultado: as melhores remunerações e os “empregos do futuro” são mais complexos e multidisciplinares. Denominou isto de “empregos híbridos” (hybrid jobs), e acredita que cerca de 12% das vagas abertas se encaixam nesta categoria. Segundo a pesquisa, os empregos muito repetitivos, tipo checklist e que exigem cognições breves tendem a ser automatizados, mas os hybrid jobs somente podem ser feitos por pessoas.  Então, para que nem um robô nem a inteligência artificial ou qualquer outra coisa ou movimento possam tornar obsoleta a pessoa e sua atividade profissional, é fundamental cuidar da “metade do seu conhecimento”. 

Yuval Noah Harari, professor de História na Universidade Hebraica de Jerusalém, ficou mundialmente conhecido pelo seu livro, o best-seller, “Sapiens: uma breve história da humanidade”. Em um dos seus últimos lançamentos, “21 Lições para o Século 21”, Harari discute o domínio de habilidades cognitivas como condição fundamental para a inserção profissional em um mercado de trabalho cada vez mais complexo e em grande transformação. Esta realidade também se aplica à cirurgia, que vem passando por grandes transformações em função do advento e desenvolvimento de tecnologias disruptivas como a videocirurgia e a cirurgia robótica. A importância das habilidades técnicas e destreza manual para os cirurgiões é um fato indiscutível. O profissional necessita desenvolver novas habilidades psicomotoras, nas quais o treinamento por simulação possui papel central. No entanto, o estudo sistemático dos erros médicos revela que uma porcentagem significativa desses equívocos é causada por fatores relacionados a habilidades não técnicas como consciência situacional, tomada de decisão, liderança e comunicação. Para uma atividade profissional segura, efetiva e ética, o cirurgião necessita também desenvolver habilidades cognitivas e afetivas com tanto esforço quanto as habilidades psicomotoras.

“Abraçar a ideia de lifelong learning e continuous reskilling. Essa forma de pensar é um dos pilares invisíveis da inovação”!