REALIDADE VIRTUAL É CAMINHO E FERRAMENTA PARA O FUTURO DA CIRURGIA

por Prof. Dr. Miguel Nácul

Interessante artigo publicado na página do MEDSCAPE Brasil, de julho 2021, debate o papel da realidade virtual no futuro da cirurgia. De autoria da Dra. Mariana Perroni, que é Médica Intensivista e Diretora Médica de Inovação e Saúde Digital do Hospital Alemão Oswaldo Cruz em São Paulo, o texto sustenta que não se pode deixar de citar a realidade virtual ao discutir o quanto tecnologias estão transformando a medicina. Conceitualmente, a realidade virtual utiliza poder computacional para criar uma realidade simulada. Já o usuário é imerso dentro de uma experiência virtual viabilizada pela utilização de softwares, óculos especiais e joysticks.


Grande aliada no auxílio a estudantes e profissionais da área de saúde, a realidade virtual pode ser aplicada em diversas situações,  como por exemplo: redução da ansiedade dos pacientes antes de procedimentos médicos, dinamização de sessões de fisioterapia e reabilitação, ensino de anatomia aos estudantes e atendimento de emergências médicas. Em última instância, o grande beneficiário é o paciente que será atendido por profissionais mais bem preparados para situações já configuradas e planejadas previamente em um mundo virtual. Especialmente é na área da cirurgia que o uso desse recurso tem demonstrado enorme potencial de benefício. A autora cita planejamento cirúrgico e educação médica como os dois principais campos para utilização da realidade virtual em cirurgia.

“Planejar procedimentos cirúrgicos com o auxílio da realidade virtual é um processo realizado por meio de softwares capazes de combinar imagens de múltiplos exames  (como tomografias, ressonâncias magnéticas e angiogramas) para criar um modelo tridimensional que possa ser visualizado e manipulado, de modo que o médico consiga definir as melhores vias de acesso e as técnicas a serem utilizadas no momento da cirurgia propriamente dita”. De acordo com a Dra. Mariana, cirurgiões que empregam a tecnologia para programar os procedimentos percebem aumento da acurácia e da precisão das abordagens, além de redução do tempo do procedimento com consequente aceleração da recuperação dos pacientes.

A médica ressalta que o potencial de uso da realidade virtual para a educação médica surgiu em meio à percepção de que o modo como os cirurgiões são treinados e avaliados pouco foi alterado ao longo do tempo, além de haver importantes gargalos. Mariana defende que o número e a diversidade de procedimentos feitos por um cirurgião em formação estão diretamente associados às características do serviço onde o profissional fez a residência e ao grau de autonomia que tinha na instituição. “Estudo da Universidade de Michigan, EUA, demonstrou que 30% dos cirurgiões não eram capazes de operar de maneira independente ao fim de seus programas de residência”.

Ensaio clínico randomizado desenvolvido na Universidade da Califórnia em Los Angeles, EUA, comparou treinamento tradicional e através de realidade virtual para colocação de haste intramedular.  Depois de concluídos os programas de treinamento, cada participante realizou um procedimento. O resultado superou expectativas, e o desempenho do grupo treinado com realidade virtual foi 230% superior daqueles que receberam capacitação tradicional. Outro exemplo citado pela autora vem da Suíça, que há oito anos utiliza uma plataforma de realidade virtual que simula procedimentos ortopédicos para avaliar os cirurgiões que prestam exame de título de especialista.

"See one, do one, teach one”, a famosa frase atribuída a William Halsted, criador da Residência Médica em Cirurgia, se tornou um mantra nos programas de treinamentos de cirurgiões. Com o advento da realidade virtual é possível que esteja chegando a hora de atualizá-lo para o século XXI, defende a Dra. Mariana Perroni.

Referências:

1 – Perroni, M., Realidade virtual e o futuro da cirurgia. Medscape. Publicado em 7 de julho de 2021. Disponível em: (https://portugues.medscape.com/verartigo/6506514uac=104228AY&ecd=mkm_ret_210725_uniann_BOMANGLO_4640259&utm_source=&utm_medium=email&utm_campaign=adhoc_bestof_email_uniann_por-glo_20210721&utm_content=4640259&utm_term=).

2 – Erikson, M., Virtual reality system helps surgeons, reassures patients. Stanford Medicine – News Center. Publicado em: 11 de julho de 2017. Disponível em: (https://med.stanford.edu/news/all-news/2017/07/virtual-reality-system-helps-surgeons-reassures-patients.html).

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4 – Blumstein, G., Zukotynski, B., Cevallos, N., Ishmael, C., Zoller, S., Burke, Z., Clarkson, S., Park, H., Bernthal, N., SooHoo, N.F. Randomized Trial of a Virtual Reality Tool to Teach Surgical Technique for Tibial Shaft Fracture Intramedullary Nailing. J Surg Educ. 2020 Jul-Aug;77(4):969-97.

5 – Herrmann., A. Better surgeons through mandatory simulator exam: “We will not take a step backwards”. Virtamed News. Publicado em: 30 de março de 2017. Disponível em: (https://www.virtamed.com/en/news/better-surgeons-through-mandatory-simulator-exam-we-will-not-take-step-backwards/).