O Despertar da era Videolaparoscópica

por Prof. Dr. Miguel Nácul

Em julho de 1990 foi realizada, no Hospital Israelita Albert Einstein (São Paulo, SP), a primeira "cirurgia sem cortes" no Brasil, uma colecistectomia por videolaparoscopia. Conduzida pela equipe chefiada pelo Dr. Thomas Szego, este procedimento cirúrgico histórico é considerado o marco inicial da era videolaparoscópica no Brasil.

E no mundo, como foi?

Artigo publicado em 2001 no Journal of the Society of Laparoendoscopic Surgeons (Reynolds W Jr. The first laparoscopic cholecystectomy. JSLS. 2001; 5(1):89-94) descreve interessantes aspectos históricos sobre esta verdadeira revolução na cirurgia.

Em 1882, Carl Langebuch (1846-1901), cirurgião alemão, realizou a primeira colecistectomia aberta. 103 anos depois, em 12 de setembro de 1985, foi a vez de outro cirurgião alemão, Erich Mühe de Böblingen, executar a primeira colecistectomia por laparoscopia. 

Em sua primeira colecistectomia laparoscópica, Mühe utilizou um laparoscópio planejado e construído por ele mesmo (Galloscope). O equipamento possuía uma ótica lateral e um canal de instrumentação (como um single-port), além de condutor de luz para o cabo de fibra ótica e duto para o estabelecimento de um pneumoperitônio. Ao contrário dos franceses que acoplaram a ótica laparoscópica à uma microcâmera (como os ginecologistas já estavam fazendo), Mühe ainda utilizou a visão monocular da antiga laparoscopia. Mühe acessou a cavidade abdominal através de uma punção com agulha de Veress na cicatriz umbilical, onde colocou o seu portal. Eventualmente, a região supra púbica foi utilizada como alternativa para a colocação do portal por razão estética.

Depois de seis cirurgias, Mühe optou por trocar a técnica. Os 88 pacientes seguintes foram operados com abordagem simplificada: colecistectomia laparoscópica sem pneumoperitônio e sem orientação ótica. Usando canal de acesso diretamente no hipocôndrio direito sobre a projeção da vesícula biliar com o seu Galloscope, Mühe utilizou o rebordo costal como um teto ósseo para não necessitar de um pneumoperitônio. Além disso, utilizou uma visão direta e não ótica do campo operatório. Apenas uma incisão na pele de 2,5 cm de comprimento foi necessária em comparação com a técnica multiportal anteriormente descrita com pneumoperitônio. Poderíamos avaliar que Mühe utilizou uma técnica híbrida mais semelhante a mini laparotomia do que a colecistectomia videolaparoscópica multiportal moderna. Adaptando instrumentais utilizados para cirurgia aberta e procedimentos endoscópicos, em especial, um clipador e uma tesoura longa, Mühe desenvolveu a técnica de clipagem do pedículo biliar, muito importante para a implantação e disseminação da colecistectomia laparoscópica.

Mühe executou um total de 94 destes procedimentos. Foi apenas dois anos após que os cirurgiões franceses, Phillipe Mouret (Lyon, 1987), seguido de François Dubois (Paris, 1988) executaram colecistectomias que, por muitos anos, foram consideradas como marco inicial da era videolaparoscópica. O definitivo reconhecimento de Mühe como o verdadeiro progenitor da colecistectomia laparoscópica demoraria alguns anos para acontecer. Em 1986, Mühe apresentou suas descobertas perante a Sociedade Cirúrgica Alemã em seu Congresso anual. O público ficou cético em relação às suas alegações e a Sociedade rejeitou o seu relato sobre a colecistectomia laparoscópica. Mühe ficou muito desanimado. Foi difícil para os cirurgiões daquela época, que trabalhavam com a premissa de que grandes problemas exigiam grandes incisões, apreciar uma técnica filosoficamente minimamente invasiva. Mühe percebeu mais tarde que parte do seu fracasso se deveu a não buscar apresentar suas técnicas para um público como o norte-americano, por exemplo. Ele publicou 342 artigos entre 1965 e 1983, porém apenas 7% deles em Inglês. Em 1990, Mühe enviou um artigo sobre as suas primeiras colecistectomias laparoscópicas ao American Journal of Surgery. Seu artigo foi rejeitado. Neste mesmo ano, durante o Congresso da Sociedade de Cirurgiões Gastrointestinais Endoscópicos Americanos (SAGES) em Atlanta (EUA), Perissat, Berci, Cuschieri, Dubois e Mouret foram reconhecidos pela associação como precursores mundiais da colecistectomia laparoscópica. Mühe não foi citado. No início da década de 1990, Mühe conheceu François Dubois de Paris e lhe comunicou que havia realizado a primeira colecistectomia laparoscópica. Dubois simplesmente nunca tinha ouvido falar do trabalho do cirurgião alemão.

A redenção viria durante o 109º Congresso da Sociedade Cirúrgica Alemã (GSS) em 21 de abril de 1992. Mühe recebeu o GSS Anniversary Award por seu trabalho pioneiro em cirurgia endoscópica. Nesta cerimônia, sua colecistectomia laparoscópica foi descrita por Franz Gall, presidente da GSS, como uma das maiores realizações originais da medicina alemã na história recente. Em 26 de março de 1999, Erich Mühe apresentou a palestra Karl Storz de abertura do Congresso anual da SAGES em San Antonio (EUA) sobre novas tecnologias: "A primeira colecistectomia laparoscópica: superando os obstáculos no caminho para o futuro".  Naquele evento, Erich Mühe foi reconhecido por mais de 1.000 cirurgiões de 41 países do mundo como o verdadeiro inventor da colecistectomia laparoscópica e recebia, finalmente, a merecida aclamação mundial por seu trabalho pioneiro.