Máscara durante a atividade física: qual é o seu custo benefício?

por Prof. Dr. Miguel Nácul

Como escrevemos em “posts” anteriores deste blog, não há evidências científicas de boa ou moderada qualidade que demonstrem que a utilização de máscara pela população em geral diminua as taxas de infecção pelo COVID-19, principalmente em ambientes abertos. A ausência de evidências robustas, todavia, não impede uma recomendação com bom senso para o uso de máscara, pois tem baixo custo e risco (máscara comum) e um potencial preventivo para transmissão de doenças infecto-contagiosas.

E quanto à realização de atividades físicas, importante para a manutenção da saúde física e mental em um momento tão complexo como este? O uso de máscara é realmente necessário para atividades ao ar livre? E em ambientes fechados? Não será prejudicial o uso de máscara nessas situações?

Autoridades, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), têm estimulado a realização de atividades físicas durante a pandemia como medida importante para a manutenção da saúde física e mental das populações. No entanto, a OMS não se posiciona de forma clara sobre usar ou não máscara durante a realização de exercícios. Em verdade, não existem estudos sobre transmissão do SARS-CoV-2 entre pessoas que andam, correm ou pedalam bicicleta. Os pesquisadores tendem a avaliar pessoas estacionárias e, na maioria dos estudos, em ambientes fechados. No dia 05 de junho de 2020, a OMS atualizou suas diretrizes, aconselhando a utilização de máscara pela população em geral em estabelecimentos públicos cheios. A indicação também vale para situações em que seja difícil manter o distanciamento social como, por exemplo, os transportes públicos ou locais intensamente frequentados.

Do ponto de vista fisiológico, especialmente em atividades físicas de maior intensidade, o uso de máscara induz alterações que são prejudiciais ao desempenho e mesmo à saúde do atleta. Durante o exercício, a frequência respiratória aumenta, elevando também o consumo de oxigênio (O2) e a eliminação de dióxido de carbono (CO2). Com a máscara (e dependendo do material com que a máscara é produzida), o CO2 pode não ser eliminado de maneira adequada, determinando, em casos extremos, acidose respiratória. Além disso, como o CO2 é um potente estimulador do centro respiratório no cérebro, o esportista tende a aumentar ainda mais a sua frequência respiratória o que prejudica o seu desempenho. Portanto, fisiologicamente falando, o uso de máscaras durante exercícios físicos deve ser evitado para atividades de maior intensidade como correr, por exemplo.  

Pesquisa bibliográfica na base de dados do PUBMED da National Library of Medicine utilizando os termos “máscara” e “exercício físico” mostra uma escassez de artigos científicos sobre o tema. A provável explicação para este fato é que em um mundo pré-pandemia, fazer atividades físicas usando uma máscara pareceria estranho.

Thomas Andre e colaboradores, pesquisadores da Universidade do Mississippi (Mississipi), Louisiana Monroe (Kentucky) e Baylor (Texas) nos EUA (Andre TL, Gann JJ, Hwang PS, Ziperman E, Magnussen MJ, Willoughby DS. Restrictive Breathing Mask Reduces Repetitions to Failure During a Session of Lower-Body Resistance Exercise. J Strength Cond Res. 2018;32(8):2103-2108), realizaram estudo para avaliar o efeito do uso de máscara respiratória restritiva (RBM) no desempenho muscular, utilizando variáveis hemodinâmicas e de estresse percebidas durante uma sessão de exercício resistido na parte inferior do corpo. Dez participantes realizaram duas sessões de teste separadas, com e sem máscara, que consistiram em agachamentos, leg press e extensão de perna. Estresse percebido antes e depois do exercício, frequência cardíaca e oximetria de pulso foram avaliados. Uma diminuição significativa no total de repetições dos exercícios foi encontrada quando do uso de máscara, a maior parte no agachamento e no leg press. Um aumento significativo foi encontrado comparando o pré-esforço e o pós-esforço com o uso de máscara. Não houve diferença significativa na frequência cardíaca entre as sessões de exercício, mas houve uma diminuição significativa na oximetria de pulso com o uso de máscara. Os autores concluíram que o uso de uma máscara restritiva gera um efeito negativo no número de repetições concluídas durante uma sessão de treinamento de resistência da parte inferior do corpo. Deve-se salientar que o tipo de máscara utilizada no estudo é mais restritivo que uma máscara comum.

Pearson e colaboradores de Instituições acadêmicas de Nancy na França e Bruxelas na Bélgica (Person E, Lemercier C, Royer A, Reychler G. Effet du port d’un masque de soins lors d’un test de marche de six minutes chez des sujets sains [Effect of a surgical mask on six minute walking distance]. Rev Mal Respir. 2018;35(3):264-268) estudaram o tema utilizando o teste de caminhada de seis minutos (TC6), regularmente usado em pneumologia. O objetivo do estudo foi avaliar prospectivamente o efeito do uso de máscara cirúrgica durante o TC6 em 44 indivíduos saudáveis. Após um primeiro TC6 para treinamento, eles realizaram aleatoriamente dois TC6: com e sem máscara cirúrgica. Foram registradas variações de distância e dispneia, frequência cardíaca e saturação de O2. Os autores observaram que a distância não foi modificada pelo uso de máscara. No entanto, a variação da dispneia foi significativamente maior com a máscara cirúrgica. Não foi encontrada diferença na avaliação dos outros parâmetros. Os autores concluíram que o uso de máscara cirúrgica modifica significativamente a função respiratória, sem influenciar na distância percorrida.

Por outro lado, Raymond J Roberge e colaboradores do National Institute for Occupational Safety and Health, Centers for Disease Control and Prevention de Pittsburgh nos Estados Unidos (Roberge RJ, Kim JH, Benson SM. Absence of consequential changes in physiological, thermal and subjective responses from wearing a surgical mask. Respir Physiol Neurobiol. 2012;181(1):29-35) avaliaram 20 indivíduos que realizaram exercício físico em esteiras a uma velocidade de 5,6 km/h durante uma hora, com e sem uso de máscara cirúrgica. Vários parâmetros como frequência cardíaca e respiratória, saturação de oxigênio, CO2 transcutâneo, temperatura da pele foram monitorados. Escalas de avaliação foram utilizadas para percepção de esforço e calor. O uso de máscara cirúrgica resultou em aumentos da frequência cardíaca e respiratória, do dióxido de carbono transcutâneo e na diminuição da temperatura da pele facial descoberta. As percepções de calor foram consideradas neutras a ligeiramente quentes, e os esforços variavam de leve, muito leve a bastante leve. Os autores concluíram que para atividades físicas de baixa a moderada intensidade, a máscara cirúrgica não está associada a um impacto fisiológico clinicamente significativo ou a percepções subjetivas significativas de esforço ou calor, apesar de alterar parâmetros fisiológicos.

Uma questão relevante é que máscaras de algodão, por acumularem a transpiração, não são as ideais para a realização de atividades físicas. Ao cobrir o nariz e a boca durante o exercício físico, a máscara ficará molhada. Com isto, perde sua função e teoricamente deveria ser trocada. Em verdade, correr com um pano molhado no rosto pode potencialmente exacerbar o problema da contagiosidade. Nesta situação, o esportista tende a mexer na parte externa da máscara, expor o nariz, favorecendo uma autocontaminação. Por fim, devemos sempre lembrar que o uso de máscara pode criar falsa sensação de segurança, levando a potencialmente menos adesão a outras medidas preventivas que são mais importantes, como distanciamento social e higiene das mãos.
 
É importante salientar que ao não utilizar máscara, o esportista deve respeitar um distanciamento de pelo menos um a dois metros de outras pessoas, além de evitar atividades em grupo. Deve procurar locais onde esteja o mais isolado possível (de preferência sozinho). Rotas ou locais alternativos, mais vazios e menos procurados, pode ser uma boa solução.
 
Já atividades físicas em ambientes fechados como academias e estúdios geram um pouco mais de preocupação. Caso o ambiente seja amplo e bem ventilado, for respeitado um distanciamento adequado entre as pessoas e uma higienização frequente dos aparelhos e móveis seja realizada, isso permitiria atividades sem uso de máscara
 
No combate a uma doença infecto-contagiosa com significativa capacidade de contágio, a máscara tem função preventiva, principalmente em ambientes fechados onde a contaminação é muito mais provável. Já em ambientes abertos, sem aglomeração, mantendo um afastamento de pelo menos um a dois metros de outras pessoas, o uso de máscara parece ser bem menos relevante. Para atividades físicas de baixa a moderada intensidade, a máscara parece não alterar parâmetros fisiológicos que prejudiquem o desempenho do esportista, apesar de desconfortável e sujeita a perder sua barreira por umedecimento. No entanto, para atividades de maior intensidade física, a máscara pode ser prejudicial não só para o desempenho, mas também para a própria saúde do esportista.
 
O uso de máscara isoladamente é insuficiente para fornecer um nível adequado de proteção ou controle da fonte de contágio. Independentemente de serem usadas máscaras, a conformidade com a higiene das mãos, o distanciamento físico e outras medidas de prevenção e controle de infecções são essenciais para impedir a transmissão de COVID-19 de uma pessoa para outra.



Referências:

1 - Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre. Instrução Normativa N°11/2020 [Internet]. 2020 [cited 2020 May 5]; Available from: http://lproweb.procempa.com.br/ pmpa/prefpoa/sms/usu_doc/in_uso_epi_sms_poa_15_0 4_2020.pdf

2 - Marasinghe KM. A systematic review investigating the effectiveness of face mask use in limiting the spread of COVID-19 among medically not diagnosed individuals: shedding light on current recommendations provided to individuals not medically diagnosed with COVID-19. 2020 [cited 2020 May 5];Available from: https://www.researchsquare.com/article/rs-16701/v2

4 - https://www.folhavitoria.com.br/esportes/blogs/corridaderua/2020/05/31/o-que-a-fisiologia-diz-sobre-correr-de-mascara/ 

5 - https://www.folhavitoria.com.br/esportes/blogs/corridaderua/2020/04/29/correr-ou-nao-de-mascara-durante-isolamento/ 

6 - https://gooutside.com.br/devo-usar-mascara-quando-vou-correr-ou-pedalar/

7 - Andre TL, Gann JJ, Hwang PS, Ziperman E, Magnussen MJ, Willoughby DS. Restrictive Breathing Mask Reduces Repetitions to Failure During a Session of Lower-Body Resistance Exercise. J Strength Cond Res. 2018;32(8):2103-2108.

8 - Person E, Lemercier C, Royer A, Reychler G. Effet du port d’un masque de soins lors d’un test de marche de six minutes chez des sujets sains [Effect of a surgical mask on six-minute walking distance]. Rev Mal Respir. 2018;35(3):264-268.Roberge RJ, Kim JH, Benson SM. Absence of consequential changes in physiological, thermal and subjective responses from wearing a surgical mask. Respir Physiol Neurobiol. 2012;181