Instituto Simutec alia ensino à pesquisa científica

por Prof. Dr. Miguel Nácul

Centro de simulação especializado em treinamentos médicos com uso de realidade virtual, o Instituto Simutec é reconhecido nacionalmente pelo seu trabalho educacional, em especial, na área de videocirurgia. O que muitos ainda não sabem é que, o Instituto Simutec desenvolve linhas de pesquisa em parceria com programas de pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Faculdade de Ciências da Saúde do Hospital Moinhos de Vento.

Uma das linhas de pesquisa recente do Instituto envolve projeto o desenvolvido em parceria com as Faculdades de Medicina da UFRGS e Faculdade de Ciências da Saúde do Hospital Moinhos de Vento que se intitula “Avaliação do desempenho de médicos residentes em colecistectomia videolaparoscópica no simulador com realidade virtual”. A pesquisadora responsável é a Dra. Mariana Kumaira Fonseca, atual aluna do programa de Mestrado em Cirurgia da UFRGS e Fellow em Cirurgia Minimamente Invasiva do Serviço de Cirurgia Geral do Hospital Moinhos de Vento. Os pesquisadores associados são Dr. Artur Pacheco Seabra, Dr. Leandro Totti Cavazzola e Dr. Miguel Prestes Nácul.

A pesquisa parte do consenso que o ensino da videocirurgia nos programas de residência médica é fundamental, porém ainda é insuficiente. É necessário uniformizar e melhorar a qualidade do treinamento das habilidades videocirúrgicas entre os residentes de cirurgia. A incorporação de novas tecnologias e o aprimoramento das habilidades técnicas nas últimas décadas permitiram a consolidação da cirurgia minimamente invasiva como o padrão-ouro no tratamento da maioria das afecções cirúrgicas abdominais. Em virtude da complexidade crescente das cirurgias minimamente invasivas, um modelo de treinamento cirúrgico específico é chave para aquisição do alto grau de proficiência técnica exigido pelo método. O modelo tradicional de formação do residente em campo cirúrgico sob supervisão, centrado na ação tutorial do preceptor sobre o aluno em pacientes reais e fundamentado no famoso aforismo cunhado por Halsted, em 1904: “see one, do one, teach one”, vem se mostrando inapropriado e limitado no treinamento em videocirurgia, sobretudo nas fases iniciais de treinamento. Trata-se de programa de ensino por demanda e oportunidade, não padronizado, dependente da carga de trabalho e do volume cirúrgico da instituição, em que a aquisição de habilidades é avaliada com base em critérios subjetivos e sem feedback periódico. Além disso, este modelo de treinamento levanta questões éticas ligadas à segurança do paciente pelo potencial risco oferecido pela inexperiência do cirurgião em campo cirúrgico.

Inovações tecnológicas aplicadas à área de ensino em saúde deram origem a equipamentos cada vez mais sofisticados, que proporcionam ambientes de treinamento com alto grau de realismo. Os simuladores com realidade virtual são capazes de reproduzir o campo cirúrgico e o comportamento fisiológico dos tecidos manipulados com alta fidelidade, permitindo a execução de diversas tarefas semelhantes às realizadas durante os procedimentos cirúrgicos. O equipamento registra todos os movimentos empreendidos durante a realização da atividade, oferecendo, portanto, feedback detalhado do desempenho baseado em critérios objetivos de avaliação, como tempo, eficiência, economia de movimentos, velocidade dos instrumentos, técnica adequada, uso seguro da energia, complicações, entre outros. Metanálises de ensaios clínicos randomizados conduzidas por Al-Kadiet al.(2012) e Alakeret al.(2016) concluíram que os simuladores com realidade virtual permitem desenvolvimento de proficiência em habilidades em videocirurgia com transferência direta do aprendizado adquirido em ambiente virtual para a sala de operação, melhorando o desempenho do cirurgião e diminuindo o tempo cirúrgico. Esse método inovador de ensino pode ser considerado um aprimoramento do modelo de aprendizagem padrão nas residências médicas, com potencial para complementar e/ou substituir o treinamento convencional que precede a atuação prática, especialmente nos alunos com experiência anterior limitada ou inexistente.

A pesquisa desenvolvida no Instituto Simutec objetiva comparar o desempenho em colecistectomia videolaparoscópica entre médicos residentes em cirurgia geral com diferentes modelos de treinamento (majoritariamente, tradicional vs. simulado) através de simulação com realidade virtual. De forma inovadora, o trabalho utiliza uma colecistectomia virtual em vez de uma colecistectomia real em paciente como parâmetro de avaliação. Critérios objetivos de avaliação presentes no próprio programa do simulador e a observação de cirurgiões experts do vídeo gravado do procedimento cirúrgico virtual são os parâmetros para avaliação do desempenho dos médicos residentes. Para o levantamento dos dados será utilizado o módulo de colecistectomia do simulador Simbionix LAP Mentor modelo háptico presente na sede de Porto Alegre do Instituto Simutec.
A despeito das evidências de sua eficácia como metodologia de treinamento, a simulação cirúrgica ainda não é padronizada na matriz curricular dos programas de residência médica do país. O custo de criação e manutenção de um centro de treinamento, como o Instituto Simutec, que possui simuladores com realidade virtual, bem como a resistência em incorporar novas tecnologias no processo de ensino em cirurgia representam limitações à ampliação do acesso a essa tecnologia. Em um contexto de necessidade crescente de capacitação em videocirurgia, a simulação utilizando aparelhos com realidade virtual surge como método alternativo de aquisição, progressão e manutenção de habilidades técnicas, complementando o tradicional ensino da cirurgia em campo cirúrgico. O incremento na curva de aprendizado e a melhoria do desempenho proporcionado pelo treinamento com realidade virtual asseguram maior confiabilidade, segurança e qualidade da prática cirúrgica em seres humanos.  
A avaliação de habilidades cirúrgicas dos médicos residentes possibilita melhor definição de novas modalidades de ensino e treinamento em cirurgia, podendo contribuir para maior confiabilidade, qualidade e segurança na execução de procedimentos no paciente real.