INFLUÊNCIA DA AVIAÇÃO NO TREINAMENTO DOS CIRURGIÕES

por Prof. Dr. Miguel Nácul

Ambos os profissionais, piloto e cirurgião, tem muito em comum, como atenção, agilidade, sensibilidade, perspicácia e conhecimento. Em suas mãos reside a responsabilidade de preservar vidas, tanto no ar como em terra firme, e para tanto precisam de muito treinamento. Em breve depoimento, o major Ran Roner, da Força Aérea Israelense em Pressfield S., descreve a rotina nos ares. 


“Um piloto de caça acelerando pela pista em uma missão operacional deve ter em mente acima de tudo o seguinte: em algum momento, até que os pneus voltem a tocar o solo, alguma coisa vai dar errado. Será uma falha de motor? Um inimigo surgindo do nada? Outro avião da sua formação passando por algum tipo de emergência? Ponha uma coisa na cabeça: algo inesperado vai acontecer. E, quando acontecer, será seguido por outra emergência, e depois por uma terceira, numa sucessão de eventos, cada um produzindo uma crise mais grave que a anterior. Numa situação como esta, o corpo do piloto vai reagir produzindo todas as manifestações de medo. Seu ritmo cardíaco vai disparar, seu macacão de voo ficará encharcado de suor. No entanto, sua mente precisa manter o foco. Seus pensamentos precisam permanecer límpidos e calmos.”

“Por que treinamos tanto? Sim, para aperfeiçoar nossas habilidades. Mas bem mais importante que isso. Treinamos para aumentar o nosso limiar de distanciamento emocional, para inculcar esse estado de prontidão e equilíbrio que permite a um piloto operar efetivamente em condições de perigo, emergência e confusão”, destaca o major, autor do livro A porta dos leões: Nas linhas de frente da guerra dos seis dias.


Grande parte dos conceitos sobre segurança em cirurgia foi baseado em fundamentos estabelecidos há muitas décadas pela aviação militar e civil. Ninguém viaja em um avião em que o piloto e sua tripulação não realizem um conjunto de etapas de verificação que constituem um sistema de segurança de voo. O treinamento através de simulação também é outro fator muito importante para a prevenção de eventos adversos durante uma viagem aérea. No entanto, não basta apenas o piloto treinar, ele precisa ultrapassar objetivos de avaliação previamente determinados. E mais: o treinamento deve envolver toda a equipe de bordo, simulando situações em que ações corretas e efetivas de cada membro da equipe farão toda a diferença. E ainda mais... Não adianta só desenvolver habilidades psicomotoras. Para fins de prevenção de eventos adversos, o treinamento e desenvolvimento de habilidades cognitivas e afetivas como liderança, controle situacional, empatia, entre outros, são fundamentais. 


Enquanto muitos serviços de Residência Médica continuam treinando os seus residentes para procedimentos videocirúgicos através de um “método halstediano”, urge a obrigatoriedade de inserir a simulação cirúrgica nos programas de treinamento dos cirurgiões em procedimentos tecnológico dependentes. E ir além, ou seja, desenvolver também, com o auxílio da simulação, habilidades não psicomotoras.


Em síntese, quando investimos e insistimos em simulação cirúrgica estamos reproduzindo conceitos muito bem estabelecidos e validados na aviação militar e civil. Em última instância buscamos segurança através da diminuição dos eventos adversos e complicações em cirurgia. 


Para fazer uma comparação bem simples, é válido reescrever o depoimento do piloto israelense como se fosse o de um cirurgião:


“Um cirurgião operando deve ter em mente, acima de tudo, o seguinte: em algum momento, até que o paciente seja encaminhado à sala de recuperação, alguma coisa vai dar errado. Será uma falha de equipamento? Um sangramento? Um achado inesperado? Ponha uma coisa na cabeça: algo inesperado vai acontecer. E, quando acontecer, será seguido por outra emergência, e depois por uma terceira, numa sucessão de eventos, cada um produzindo uma crise mais grave que a anterior. Numa situação como esta, o corpo do cirurgião vai reagir produzindo todas as manifestações de medo. Seu ritmo cardíaco vai disparar, seu avental cirúrgico ficará encharcado de suor. No entanto, sua mente precisa manter o foco. Seus pensamentos precisam permanecer límpidos e calmos. Por que treinamos tanto? Sim, para aperfeiçoar nossas habilidades. Mas bem mais importante que isso. Treinamos para aumentar o nosso limiar de distanciamento emocional, para inculcar esse estado de prontidão e equilíbrio que permite a um cirurgião operar efetivamente em condições eletivas ou emergenciais com segurança e efetividade”.


Confira também o nosso post sobre a importância do treinamento em simulação:
5 razões para não treinar no paciente


Referências:

Miguel Nácul, Cirurgião Geral e do Aparelho Digestivo. Coordenador Médico Instituto SIMUTEC

Major Ran Roner – Força Aérea Israelense em Pressfield S. A porta dos leões: Nas linhas de frente da guerra dos seis dias. Editora Contexto. 1 edição. 2020.