Erro Médico - um tema persistente

por Prof. Dr. Miguel Nácul

ERRO MÉDICO - UM TEMA PERSISTENTE
Dr. Miguel Nácul
 
Um dos temas mais recorrentes na área cirúrgica é o "erro médico". Problema extremamente frequente, o “erro médico” é um termo usado para eventos adversos ocorridos durante o atendimento a um paciente e que estão diretamente relacionados à ação do médico. Complicações durante a investigação ou tratamento são relativamente comuns, principalmente dentro de um hospital e são causadas por diversos fatores. Em boa parte das vezes, uma complicação não provém de uma ação direta da equipe médica. No entanto, o médico tende a ser o responsável, em geral, juntamente com o hospital pelo evento. A constatação da necessidade de encarar o assunto de forma mais aberta, direta e transparente contribuiu muito para uma melhor abordagem destas situações que tem um potencial alto de morbimortalidade. Mais corretamente tratado como "segurança em cirurgia", o assunto gerou uma série de medidas e ações no sentido de controlá-lo. A mais destacada é a lista de checagem pré, trans e pós-operatória, que hoje está presente na maior parte das salas cirúrgicas do mundo e que, em resumo, visa a correta identificação do paciente e do procedimento cirúrgico a ser realizado. O "timeout" cirúrgico é uma ação obrigatória da equipe cirúrgica e tem salvado vidas ao longo dos anos após a sua implementação, apesar de não impedir totalmente a existência de confusões e enganos.

 
A ideia de que o “erro médico” causa uma complicação cirúrgica, de maior ou menor porte, devido a um erro técnico por parte do cirurgião parece equivocada. Em verdade, mesmo cirurgiões altamente treinados e operando em hospitais com grande estrutura tecnológica cometem erros, muitas vezes grosseiros, que determinam complicações. Dados demonstram que a maior parte destas complicações provém de problemas relacionados não a habilidades psicomotoras, mas sim afetivas e cognitivas. Por isso, o treinamento de um cirurgião deve focar não somente em seu desenvolvimento técnico, mas também o humano, incrementando qualidades afetivas e cognitivas. Yuval Harari, professor israelense no departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém e autor do best seller “Sapiens: Uma breve história da humanidade”,  em seu mais recente livro “21 Lições para o século 21” ( São Paulo: Companhia das Letras, 2018) , descreve as habilidades específicas que deveríamos aprender para o futuro: pensamento crítico, comunicação, colaboração e criatividade. Habilidade para lidar com mudanças, aprender coisas novas, preservar o equilíbrio mental em situações não usuais e capacidade de se reinventar (várias vezes ao longo da vida) parecem serem fundamentais para uma atividade profissional mais segura e bem sucedida.


Concluímos que no que se refere ao treinamento do cirurgião, o desenvolvimento de habilidades técnicas por si só não é suficiente! Componentes críticos importantes incluem desenvolvimento cognitivo, conhecimento com reestudo de anatomia e fisiologia, treinamento em sistemas, incluindo de informação e novas tecnologias e o desenvolvimento de habilidades interpessoais/time/liderança. Provavelmente, a estruturação de um currículo que também foque nestes aspectos, terá importante influência na diminuição dos eventos adversos no tratamento de pacientes.