A ideia de que o “erro médico” causa uma complicação cirúrgica, de maior ou menor porte, devido a um erro técnico por parte do cirurgião parece equivocada. Em verdade, mesmo cirurgiões altamente treinados e operando em hospitais com grande estrutura tecnológica cometem erros, muitas vezes grosseiros, que determinam complicações. Dados demonstram que a maior parte destas complicações provém de problemas relacionados não a habilidades psicomotoras, mas sim afetivas e cognitivas. Por isso, o treinamento de um cirurgião deve focar não somente em seu desenvolvimento técnico, mas também o humano, incrementando qualidades afetivas e cognitivas. Yuval Harari, professor israelense no departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém e autor do best seller “Sapiens: Uma breve história da humanidade”, em seu mais recente livro “21 Lições para o século 21” ( São Paulo: Companhia das Letras, 2018) , descreve as habilidades específicas que deveríamos aprender para o futuro: pensamento crítico, comunicação, colaboração e criatividade. Habilidade para lidar com mudanças, aprender coisas novas, preservar o equilíbrio mental em situações não usuais e capacidade de se reinventar (várias vezes ao longo da vida) parecem serem fundamentais para uma atividade profissional mais segura e bem sucedida.
Concluímos que no que se refere ao treinamento do cirurgião, o desenvolvimento de habilidades técnicas por si só não é suficiente! Componentes críticos importantes incluem desenvolvimento cognitivo, conhecimento com reestudo de anatomia e fisiologia, treinamento em sistemas, incluindo de informação e novas tecnologias e o desenvolvimento de habilidades interpessoais/time/liderança. Provavelmente, a estruturação de um currículo que também foque nestes aspectos, terá importante influência na diminuição dos eventos adversos no tratamento de pacientes.