CORONAVÍRUS: quem protege os protetores?

por Prof. Dr. Miguel Nácul


Quando a síndrome respiratória aguda grave (SARS) apareceu em 2003 - 2004, aproximadamente 20% do total das infecções se deram em profissionais da saúde da linha de frente. Na região metropolitana de Toronto, o epicentro do surto na América do Norte, esse número foi mais que o dobro (43%) e duas enfermeiras e um médico morreram. Esse foi um golpe duplo para os profissionais infectados convalescentes e para os pacientes, pois os serviços essenciais prestados foram racionados. Após os 375 casos de SARS em Toronto, um inquérito sobre a SARS em Ontário, divulgado em 2007, concluiu que o sistema de saúde não estava adequadamente preparado para a crise, e não tinha capacidade de proteger a equipe médica na linha de frente. Os responsáveis pelo relatório disseram, com ironia, que os hospitais são locais de trabalho tão perigosos quanto as minas e as fábricas, mas têm menos medidas de proteção. Agora, a memória desses acontecimentos assombra a equipe médica que luta contra o novo irmão do vírus SARS, o SARS-CoV-2, que causa a Covid-19.


 "Não podemos combater a Covid-19 sem proteger os nossos profissionais da saúde", disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, em uma recente coletiva de imprensa.

Em um estudo publicado on-line no Journal of American Medical Association (JAMA) em fevereiro de 2020 que apresenta uma série de 138 casos consecutivos de pacientes hospitalizados no Hospital Zhongnan da Universidade de Wuhan, China com infecção por COVID-19 entre 1 a 28 de janeiro de 2020, 57 (41,3%) foram infectados no hospital, incluindo 17 pacientes (12,3%) que já estavam hospitalizados por outros motivos e 40 profissionais de saúde (29%). Dos profissionais de saúde infectados, 31 (77,5%) trabalhavam em enfermarias em geral, 7 (17,5%) no pronto socorro e 2 (5%) na UTI.


Em uma pandemia como a do COVID-19, o maior grupo de risco são os profissionais da saúde, em especial aqueles que trabalham na linha de frente do atendimento destes pacientes – centros de terapia intensiva e emergências. Além da exposição frequente e eventualmente continuada a pacientes infectados, estes profissionais se tornam potenciais vetores desta infecção para outras pessoas – colegas, pacientes, familiares e amigos. A situação, obviamente, determina um aumento do stress, diminuição da imunidade e desestabilidade emocional. Estes profissionais são valiosos e cada vez mais importantes por sua experiência e proficiência no atendimento aos pacientes vítimas do COVID-19. Neste sentido, sabem que ao se contaminarem terão de sair da linha de frente de atendimento por pelo menos 15 dias e serão eventualmente substituídos por profissionais não tão especializados ou preparados para as suas funções.


Nos Estados Unidos, pesquisas realizadas entre profissionais da área da saúde mostram que estes não acreditam que contam com proteção suficiente para garantir a continuidade do cuidado ao paciente em centros médicos que já estão no máximo de sua capacidade. A experiência no atendimento a pacientes infectados pelo COVID-19 em outros países mostra que o surto pode aparecer com uma linha de ascensão muito rápida, determinando super lotação hospitalar, alta carga de trabalho e um aumento nos gastos com itens consumíveis (descartáveis). Associado as medidas restritivas de movimentação e contingenciamento social (que no Brasil estão sendo realizadas de forma mais precoce e preventiva), acabam por interromper cadeias de suprimento globais, gerando escassez de equipamentos de proteção individual (EPI), como máscaras, óculos de proteção, capacetes com respirador, luvas e aventais. Os funcionários acabam por ter que racionar o uso de EPIs.

Dúvidas sobre a adequação das medidas de proteção são uma das principais preocupações dos profissionais da área de saúde, em especial de enfermagem, assim como acesso ao EPI, pouco treinamento sobre os protocolos e uso de equipamentos e avaliação e triagem inadequada de pacientes.


A chave é reeducar e treinar novamente todos os profissionais de saúde, independentemente da função, segundo as demandas de cada nova crise. Existem protocolos de controle em vigor, mas a equipe deve ser treinada nos protocolos que se aplicam aos padrões específicos para cada tipo de pandemia.


São meritórias e justas as homenagens que estão sendo feitas aos profissionais da área da saúde em todo mundo. Mas devemos salientar que nós médicos e demais profissionais da saúde, NÃO SOMOS HERÓIS, SOMOS PESSOAS NORMAIS, com nossas limitações, receios, mas também acostumados e treinados para enfrentar esta crise. Não estamos trabalhando por favor, mas sim porque esta é a NOSSA MISSÃO E RSPONSABILIDADE. Estamos cumprindo nosso juramento hipocrático e contribuindo para o bem-estar da nossa comunidade que inclui parentes e amigos. Devemos trabalhar firme, mas também exigir a necessária estrutura de apoio organizacional, estrutural, físico e emocional para poder fazer o nosso melhor. Estamos confiantes de que podemos cuidar dos pacientes com Covid-19 e ajudar a impedir a propagação desse vírus, se recebermos a proteção e os recursos necessários para fazer o nosso trabalho. Mas entendemos que na ausência de certeza científica, devemos pecar pelo excesso de precaução.


Em última análise, o que é necessário é cooperação. Todos estão trabalhando – e muito – para garantir que a resposta ao surto de Covid-19 se desenvolva da melhor forma e o mais rápido possível.

A crise gerada por esta pandemia é uma emergência de saúde pública extraordinária e exige que também a comunidade trabalhe junto conosco. Neste sentido, reiteramos que a ação possível da população no momento é:


- FICAR EM CASA!
- LAVAR BEM (E FREQUENTEMENTE) AS MÃOS!
 

Texto adaptado do PORTAL MEDSCAPE - Covid-19: Quem protege os protetores? Diana Swift - 17 de março de 2020.