COMO OS SMARTPHONES AFETAM A PRÁTICA MÉDICA

por Prof. Dr. Miguel Nácul

INTRODUÇÃO

 A tecnologia é um caminho sem volta e está inserida em praticamente todas as atividades do ser humano. Aqui, destaque para os smartphones, que tornaram-se uma parte essencial da prática médica. Embora a comunicação instantânea móvel permita que os médicos intervenham no atendimento ao paciente, de qualquer local e a qualquer momento, esse acesso constante também pode expor os profissionais à consequências negativas. Existe um verdadeiro paradoxo cercando as tecnologias móveis: as mesmas ferramentas que capacitam, também podem eliminar as liberdades pessoais, aumentar a pressão de trabalho e obscurecer a fronteira entre a vida profissional e a pessoal - um fenômeno descrito como o paradoxo empoderamento/escravidão.

É necessário verificar de que forma os indivíduos usam a tecnologia em saúde, avaliando a relação eficiência e qualidade de vida. O objetivo deste artigo é discutir a relação que os médicos têm com seus gadgets e os potenciais benefícios e danos determinados por esta relação.

BENEFÍCIOS DOS SMARTPHONES

Em um ambiente agitado, onde os médicos estão constantemente se movendo entre clínicas, hospitais e conferências, os smartphones podem ser usados ​​para colaborar entre profissionais de diferentes especialidades e níveis de formação. Cumprem com excelência funções como, acompanhar com segurança os resultados de exames, ligar ou responder à referências, retorno de telefonemas de médicos ou pacientes, registros médicos completos e muito mais. Os médicos também podem aproveitar essa facilidade de comunicação para obter conselhos de colegas mais experientes ou especialistas. Isso é especialmente verdadeiro com o advento de aplicativos. São inúmeras as funções: operam com o arquivamento de imagens médicas e de sistemas de comunicação e câmeras de alta resolução existentes na maioria dos smartphones, que permitem que imagens clínicas sejam transferidas e avaliadas remotamente.

Smartphones mais avançados podem ser benéficos para diminuir o risco de erros médicos associados a atrasos na comunicação. Eles permitem “comunicação síncrona”, quando o comunicador e o destinatário participam simultaneamente, neste caso por telefone. Tais interações permitem a comunicação imediata em circuito fechado com a capacidade de solicitar informações adicionais e/ou esclarecimento, um processo que pode superar alguns dos desafios de transmissão de informações da saúde nos dias atuais. Além disso, smartphones mais sofisticados oferecem inúmeras aplicações médicas que orientam vários aspectos dos cuidados médicos, como dosagem de medicamentos, diretrizes clínicas, técnica cirúrgica, anatomia, guias de equipamento, entre outras, disponíveis em formatos escrito, áudio e vídeo. Outros aplicativos oferecem entrada de dados simplificada e acesso para tarefas, como registro de casos clínicos/cirúrgicos, preenchimento de faturamento pessoal, permitindo resultados ou monitoramento de requisitos de treinamento e fornecendo feedback a estagiários, sempre mantendo a confidencialidade. Cada um destes aplicativos são ferramentas inestimáveis para médicos de todas as especialidades e em qualquer nível.

Mais recentemente, smartphones têm sido usados para acessar plataformas de mídia social, como Instagram, Twitter, Facebook e Youtube fontes cada vez mais usada entre médicos acadêmicos para disseminar e discutir informações médicas relevantes (por exemplo, diretrizes de prática e novas pesquisas), ao mesmo tempo em que promove inclusão, liderança e mentoria. Fica clara a razão porque tantos médicos estão constantemente envolvidos com seus telefones durante sua rotina diária.

LADO NEGATIVO DOS SMARTPHONES

A atual e quase onipresente aceitação de smartphones na prática clínica também levanta preocupações sobre os seus potenciais efeitos adversos que incluem interrupção do fluxo de trabalho, envolvimento do médico e violação dos limites da vida profissional. A perturbação tem sido documentada em cirurgias por meio da observação de interrupções do fluxo cirúrgico - desvios na progressão natural de uma tarefa que pode comprometer a segurança e a eficiência.


O uso de telefones também tem sido associado com comportamentos reclusos, ou seja, os indivíduos tendem a se tornar mais invasivos, indelicados e perturbados. Tais comportamentos têm um efeito negativo no envolvimento do médico com pacientes, outros profissionais de saúde e em suas vidas pessoais. Além disso, eles dificultam os limites entre trabalho e vida pessoal. Smartphones atuam como coleiras eletrônicas profissionais, resultando em várias consequências negativas. Destaque para o aumento da jornada de trabalho, com expectativa de maior disponibilidade e responsividade imediata,  absenteísmo, níveis elevados de estresse, menor produtividade e incapacidade de manter relacionamentos pessoais e passatempos.

CONCLUSÕES

Os smartphones revolucionaram a vida das pessoas e têm tido grande impacto na atividade profissional médica. Quaisquer desvantagens deles, no que se refere à qualidade de vida e outras medidas, devem ser comparadas com os inconvenientes anteriores de chamadas telefônicas perdidas e à dificuldade de comunicação eficiente e rápida na era da telefonia fixa. Soluções que visem diminuir o excesso de trabalho e o estresse e promover a autoconsciência emocional, estruturas de apoio e equilíbrio entre vida profissional e pessoal são as chaves para estimular a qualidade de vida do médico.

REFERÊNCIA

Cohen TN, Jain M, Gewertz BL. Personal Communication Devices Among Surgeons-Exploring the Empowerment/Enslavement Paradox. JAMA Surg. 2020 Dec 23.