Como manter o treinamento cirúrgico durante a pandemia?

por Prof. Dr. Miguel Nácul

Texto: Dr. Miguel Nácul

A pandemia do Coronavírus além das suas terríveis consequências sanitárias e repercussões econômicas de curto, médio e longo prazo, também demonstrou um lado oculto que, com o final do período pandêmico, começa a se expressar de forma cristalina e assustadora.  Enquanto o foco e quase todo o esforço e investimento estavam direcionados para o combate do COVID-19, milhões de pessoas com outras doenças tiveram a sua saúde piorada. Talvez, ao final da pandemia, esta realidade seja uma das piores consequências de todo este processo que estamos vivendo. Pacientes tiveram que adiar consultas, exames, cirurgias, muitas agendadas há meses! Cirurgiões diminuíram suas atividades cirúrgicas, substituídas por atendimento aos pacientes vítimas da COVID-19. Médicos Residentes tiveram o seu treinamento em campo cirúrgico muito prejudicado em função da suspensão de cirurgias eletivas e pela surpreendente diminuição dos casos de urgências em especial abdome agudo e trauma. Mesmo no retorno as cirurgias eletivas, uma população amedrontada retornará de forma lenta a procurar os serviços de saúde.

Neste contexto, a manutenção das habilidades psicomotoras, fundamentais para o cirurgião e usualmente realizadas pela atividade cirúrgica continuada, torna-se uma necessidade e uma complexidade. Como manter o treinamento cirúrgico neste momento peculiar da atividade médica? 

A utilização de tecnologias de informação para a troca de conhecimentos e experiências aliada ao desenvolvimento de programas de computador que criam ambientes virtuais para treinamento de profissionais da área de saúde podem ajudar muito!  A simulação, em especial a realizada em ambiente virtual, permite a repetição do treinamento até a proficiência, a qual é determinada por critérios de avaliação objetivos. Procedimentos cirúrgicos que não estão sendo realizados em pacientes, podem ser simulados, parcialmente substituindo o tempo de treinamento em pacientes. Evidentemente que treinamentos com simuladores físicos devem estar associados a cuidados muito rigorosos de limpeza e higiene, além de ser realizados em pequenos grupos, paramentados de forma adequada a prevenir contaminação ente os treinandos e tutor.

Nesta pandemia, atitudes proativas, ponderadas e perspicazes podem fazer toda a diferença em um ambiente profissional de incertezas. São nestas situações limites que o treinamento dos profissionais, muito hoje baseado na simulação, faz toda a diferença. Em um momento de diminuição muito significativa da atividade cirúrgica, restrita a urgências e casos eletivos não postergáveis (como cirurgias oncológicas), a simulação médica presencial em centros de simulação como o Instituto SIMUTEC se torna ainda mais importante em um contexto de “destreinamento” dos cirurgiões, em especial para aqueles cirurgiões em fase de treinamento (residência médica & fellowship).

Bibliografia
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