COLECISTECTOMIA VIDEOLAPAROSCÓPICA NO SUS: COMO ESTAMOS INDO?

por Prof. Dr. Miguel Nácul

O assunto é instigante e tem mobilizado reconhecidos profissionais da cirurgia, como José Gustavo Olijnyk, Leandro Totti Cavazzola, José Eduardo de Aguilar Nascimento, Miguel Prestes Nácul e Elias Couto de Almeida Filho, que assinam o artigo “Colecistectomia Videolaparoscópica como Indicador da Implantação da Videocirurgia no Brasil”.


Com vasto conhecimento, os autores são cirurgiões no Departamento de Cirurgia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Departamento de Cirurgia da Universidade Federal do Mato Grosso e Centro de Ensino e UNICETREX em Brasília, DF. O referido texto  analisa o aumento da porcentagem de colecistectomias realizadas por técnica minimamente invasiva no Brasil dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), de 2008 a 2012.  Destaque para um levantamento da prevalência do uso da videocirurgia no tratamento de pacientes usuários do SUS.


Desde a introdução da videocirurgia no Brasil, a partir de 1990, procedimentos utilizando essa via de acesso têm sido realizados em hospitais de referência, localizados principalmente nas capitais. Ao longo destes 30 anos, a técnica foi incorporada no cotidiano dos centros cirúrgicos de todo o território nacional, desde procedimentos corriqueiros como a colecistectomia videolaparoscópica (CVL) até procedimentos mais complexos, como cirurgias bariátricas, prostatectomias e colectomias. A CVL é o tratamento padrão ouro da doença biliar benigna, sendo uma técnica utilizada amplamente em todo o mundo. A introdução da videolaparoscopia aumentou a realização de colecistectomias. 


Apesar das técnicas videocirúrgicas serem realizadas rotineiramente mesmo em hospitais de menor porte do interior do Brasil, ainda carece de estudos acerca da real utilização da videocirurgia no SUS. O objetivo do estudo foi realizar o levantamento do uso da videocirurgia no SUS através da CVL como indicador, por ser o procedimento mais realizado e representativo da sua implantação no país. A hipótese dos autores é que, apesar de ser utilizado frequentemente nos hospitais de referência e no atendimento da população coberta por planos de saúde privados, a prevalência do emprego da CVL em relação à colecistectomia aberta ainda está aquém do desejado quando considerado o atendimento da população dependente do SUS. Através da análise do banco de dados DATASUS (registro nacional de saúde) foi calculada a prevalência do emprego da colecistectomia videolaparoscópica e aberta no período de janeiro de 2008 a dezembro de 2012, considerando a abrangência geográfica de todo o território brasileiro. 


Os autores observaram que no final do período houve aumento na realização de colecistectomia por videolaparoscopia no Brasil, com variação percentual de 125,7%. Mesmo assim, a colecistectomia aberta ainda foi a técnica realizada com maior prevalência, apesar do aumento da taxa do procedimento por videocirurgia durante os cinco anos analisados, de 12% para 25% em 2012. 


Incluindo dados mais recentes, podemos comparar a porcentagem de colecistectomias realizadas por videolaparoscopia entre os períodos 2008/2015 e 2016/2021.De 2008 a 2015 foram realizadas 730.178 colecistectomias dentro do SUS. Destas, 249.451 foram por videolaparoscopia, ou seja, 34,16% dos casos.


Abaixo os números por região (total/videolaparoscópicas):
  • Região Norte: 63.484 / 4.830 (7,6%)
  • Região Nordeste: 237.863 / 3.1781 (13,36%)
  • Região Sudeste: 244.300 / 144.274 (59,05%)
  • Região Sul: 120.571 / 51.329 (42,77%)
  • Região Centro-Oeste: 63.960 / 17.237 (26,94%)

Já no período entre 2016 e abril de 2021, 414.503 colecistectomias foram realizadas, das quais 292.351 por videolaparoscopia (70,5%). Os números por região são:
  • Região Norte: 44.761 / 6.250 (13,9%)
  • Região Nordeste: 149.354 / 51.377 (34,39%)
  • Região Sudeste: 109.082 / 163.492 (66,72% foram abertas)
  • Região Sul: 78.813 / 51400 (65,21%)
  • Região Centro-Oeste: 32.493 / 19.832 (61,03%)

A análise desses dados demonstra um aumento significativo no número de colecistectomias realizadas por videolaparoscopia nos últimos anos no em todas as regiões do Brasil, com especial ênfase no sudeste onde hoje a técnica minimamente invasiva é mais utilizada que a aberta. Mesmo assim, considerando as grandes vantagens da técnica minimamente invasiva, o Brasil ainda realiza um percentual videolaparoscópico baixo para o tratamento da colelitíase. Isso pode ser verificado quando comparamos com dados dos Estados Unidos da América, relatados pelo Center of Disease Control and Prevention (CDC), demonstrando que já em 2006, 77% das colecistectomias em regime hospitalar eram feitas por videolaparoscopia. 


Apesar da região Sul possuir o maior número de CVL por 100 mil habitantes, a variação percentual para o período de 2008 a 2021 foi a menor. Todas as demais regiões tiveram aumento superior a 100%, com destaque para as regiões Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste. Uma possível causa para este fenômeno pode ser que, mesmo sendo a região Sul uma das pioneiras na implantação da videocirurgia, a oferta de tratamento da colelitíase por videocirurgia esteja saturado nos hospitais de referência do SUS. Além disso, sua taxa de colecistectomia aberta permanece constantemente alta no período, sem tendência para queda.   


Há necessidade de que os gestores de saúde pública adotem uma política de “atenção primária em videocirurgia”, envolvendo capacitação técnica, tanto do cirurgião como de sua equipe, implementação de protocolos de segurança, realização do procedimento em regime ambulatorial e disponibilização de tecnologia básica nos hospitais que ainda não a possuem. Cirurgiões, com o intuito de oferecer aos seus pacientes um tratamento diferenciado, além de investirem recursos próprios em sua capacitação através de cursos, se obrigam a adquirir materiais e equipamentos que permitam colocar a videocirurgia em prática com segurança. Além disso, precisam treinar a equipe que o auxiliará, instrumentadores e técnicos de centros de esterilização de materiais. Também cabe às sociedades cirúrgicas brasileiras buscar a viabilização das melhores formas de tratamento para os pacientes, tanto para os assistidos por planos de saúde suplementar como pelo SUS. E uma das estratégias fundamentais é o investimento em treinamento em todos os níveis, iniciando na graduação, com a simulação como base pedagógica.



REFERÊNCIAS:

1. OLIJNYK, JOSÉ GUSTAVO ; CAVAZZOLA, LEANDRO TOTTI ; AGUILAR-NASCIMENTO, JOSÉ EDUARDO ; NÁCUL, MIGUEL PRESTES ; ALMEIDA FILHO, ELIAS COUTO . Video-Assisted Surgery Implementation in the Public Health System of a Developing Country. World Journal of Surgery, v. 38, p. 1912-1916, 2014.

2. DATASUS- Procedimentos hospitalares do SUS por local de internação- Brasil. Ministério da Saúde, Brasil - 2013. Disponível em: URL http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sih/cnv/qiuf.def

3. U.S. Department of Health and Human Services; Center of Disease Control and Prevention (CDC). United States, 2009. Disponível em URL http://www.cdc.gov/nchs/data/hus/hus09.pdf