CIRURGIÃS MULHERES OFERECEM MENOR RISCO DE ÓBITO AOS PACIENTES

por Prof. Dr. Miguel Nácul

Estudo conduzido pela Universidade de Toronto no Canadá demonstra que pacientes operados por cirurgiões mulheres têm 12% menos chance de morrer no período pós operatório.
 
Segundo os achados do estudo, pacientes de cirurgiões do sexo feminino operados na cidade canadense entre 2007 e 2015 tiveram 12% menos risco de óbito nos trinta primeiros dias do pós-cirúrgico em relação a quem foi operado por cirurgiões homens. O estudo levou em conta todas as pessoas submetidas a cirurgias na cidade, no período analisado. Foram consideradas variáveis como idade e sexo dos pacientes e, no caso dos especialistas, idade, experiência e número de cirurgias realizadas.
 

A pesquisa se concentrou em 104.630 pacientes e 3.314 cirurgiões, sendo 2.540 homens e 774 mulheres. De acordo com os autores, cirurgiões da divisão de urologia e ortopedia do Centro de Ciências do Sunnybrook Health da Universidade de Toronto e do Mount Sinai Hospital da Universidade Health Network (também de Toronto) e Houston Methodist Hospital, Houston, EUA, a prática cirúrgica adequada depende de conhecimento, capacidade de comunicação, julgamento e técnica – habilidades que, segundo eles, diferem cirurgiões de outros especialistas. Na verdade, homens e mulheres praticam medicina de maneira diferente, mas existem ainda poucas pesquisas sobre o estilo de aprendizagem, a adequação de habilidades e os resultados obtidos por cirurgiões homens e mulheres.

Em 1875, o médico francês Lucas Championnaire classificou as mulheres médicas como ambíguas, hermafroditas ou assexuadas, monstros sob todos os pontos de vista. A afirmação foi feita em um momento em que qualquer campo profissional, era terreno hostil ao sexo feminino. Championnaire acreditava que, devido às “leis da fisiologia”, no momento em que mulheres colocassem as mãos em um estetoscópio, deixariam de ser mulheres. Imaginem então se pegassem em um bisturi! Infelizmente levou quase um século e meio para que a pergunta do francês recebesse resposta adequada: mulheres se tornaram excelentes cirurgiãs. Melhores, até, que seus colegas homens. Pelo menos, essa é a conclusão deste estudo da Universidade de Toronto.

Em artigo anteriormente publicado neste blog, mostramos que desde 2011 segundo estatísticas do Conselho Federal de Medicina e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) cruzadas pela Universidade de São Paulo, as vagas nas escolas de medicina no Brasil passaram a ser predominantemente ocupadas por mulheres: 56% do total dos ingressantes no curso eram do sexo feminino. Esta proporção não se repete pelas especialidades. No Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), que contabiliza o cadastro de mais de sete mil especialistas no país, o número de mulheres cirurgiãs vem crescendo e já representa 20% do total.

Conforme a professora Elisabete Gomes dos Santos, Membro Titular do CBC e cirurgiã-geral no hospital da Universidade Federal do Rio de Janeiro, uma explicação possível é que mulheres são mais focadas, menos sujeitas a distrações quando se empenham em uma tarefa. A cirurgia ainda é uma especialidade muito masculina. A mulher geralmente tem um segundo e um terceiro empregos: casa e filhos. A cirurgia tem forte demanda profissional. E uma mulher cirurgiã precisa estudar mais, trabalhar mais e mostrar que é competente muito mais vezes que um homem, se quiser se destacar. Até pouco tempo atrás, a própria condição de ser mulher eliminava candidatas em concursos para residência médica, em especial em áreas cirúrgicas. Chefes de residência reprovaram as candidatas mulheres com medo de que elas fossem engravidar e se afastassem do hospital, desfalcando a equipe. Esta realidade felizmente é muito menos presente nos dias atuais.

O estudo da Universidade de Toronto sustenta a necessidade de um exame mais aprofundado dos resultados cirúrgicos e mecanismos relacionados aos médicos, processos subjacentes e padrões de atendimento no sentido de diminuir a mortalidade, complicações e reinternações. Médicos do sexo feminino e masculino diferem em sua prática da medicina de maneiras que podem afetar substancialmente os resultados dos pacientes. E os resultados após a cirurgia dependem das habilidades técnicas e cognitivas dos médicos responsáveis pelo tratamento que são desenvolvidas pelo treinamento e prática profissional em cima de talentos e habilidades do profissional.

Apesar do estudo ter encontrado apenas uma pequena diferença nos resultados cirúrgicos entre pacientes tratados por cirurgiões do sexo feminino e masculino, o risco reduzido, mas estatisticamente significativo, de morte pós-operatória em curto prazo em pacientes operados por cirurgiões do sexo feminino, demonstra o quanto mulheres são competentes para atuarem  não somente em áreas clínicas, mas também em especialidades cirúrgicas, extremamente solicitantes do ponto de vista físico e emocional. 

Referências Bibliográficas:
  1. Wallis CJ, Ravi B, Coburn N, Nam RK, Detsky AS, Satkunasivam R. Comparison of postoperative outcomes among patients treated by male and female surgeons: a population based matched cohort study. BMJ. 2017 Oct 10;359:j4366. doi: 10.1136/bmj.j4366. PMID: 29018008; PMCID: PMC628426

  2. Franco T, Gomes dos Santos E. Mulheres e cirurgiãs. Rev. Col. Bras. Cir. 37 (1), Fev  2010.