Cirurgia Robótica: de promessa à realidade

por Prof. Dr. Miguel Nácul

A introdução de dispositivos robóticos para auxilio de cirurgias endoscopicamente executadas tem trazido consigo um maior apelo pela realização de procedimentos minimamente invasivos. A cirurgia robótica mantém os benefícios da cirurgia minimamente invasiva que incluem a redução da perda sanguínea, diminuição da dor pós-operatória, redução da resposta inflamatória, retorno imediato às atividades diárias, redução de complicações de sítio operatório (infecções e hérnia incisional), entre outros, acrescentando vantagens baseadas em tecnologia que ampliam as possibilidades técnicas do cirurgião. A plataforma robótica permite que os cirurgiões realizem cirurgias a partir de um console remoto, com instrumentos de robótica inseridos através de pequenas incisões.


O robô Da Vinci da empresa Intuitive, único disponível no Brasil, é composto por três componentes principais: um console ergonômico do cirurgião, um totem de quatro braços cirúrgicos interativos junto ao paciente (denominado de patient side cart) e uma torre de vídeo de alta definição que abriga processadores do sistema (núcleo central ou core). Os dedos do cirurgião manipulam controles que transferem remotamente às pinças todos os comandos, filtrando pequenos tremores ou movimentos muito bruscos. Dois sistemas óticos de alta qualidade fundem a imagem e a transmitem ao console cirúrgico resultando em uma visão em três dimensões com altíssima definição (full HD). 

 
O sistema oferece vantagens que diferenciam a cirurgia robótica dos procedimentos videocirúrgicos “convencionais”. O movimento robótico replica os movimentos realizados no console do cirurgião com mais precisão, porém sem atividade autônoma. Além disso, acrescenta a possibilidade do cirurgião operar em uma posição ergonomicamente melhor. As pinças robóticas são articuladas, possuindo sete graus de liberdade de movimento. A imagem, tridimensional, pode amplificar em até quinze vezes o campo operatório permitindo compreensão anatômica superior. Outra grande vantagem da cirurgia robótica é a facilidade de incorporar processos de inteligência artificial e informações que aumentam a segurança do procedimento. Por fim, a plataforma robótica também permite que um cirurgião opere um paciente à distância. Realizada pela primeira vez em 2001, quando o Professor Jacques Marescaux operou de Nova York um paciente locado em Estrasburgo na França, a telecirurgia depende tão somente da velocidade e segurança da conexão e tem um potencial extraordinário no atendimento de pacientes e para a realização de procedimentos cirúrgicos de alta complexidade.


Essas vantagens desencadeiam uma inexorável tendência pela aquisição de sistemas e treinamento nesses dispositivos, o que determinou um crescimento vertiginoso da oferta desta modalidade cirúrgica nos EUA, passando de um robô em 1999 para quase dois mil robôs em apenas uma década. Na Urologia, mais de 90% das prostatectomias radicais são hoje executadas nos EUA através de um robô. A robótica cirúrgica chegou em 2008 no Brasil. De lá pra cá, já foram realizadas mais de 30 mil cirurgias e são 1200 cirurgiões certificados pela empresa em 14 especialidades médicas. O país conta hoje com 76 plataformas robóticas, metade destas locadas em hospitais na região Sudeste. A maioria está na rede de saúde privada, mas hospitais públicos do Rio de Janeiro, São Paulo, Barretos, Belém, Recife e Porto Alegre já contam com equipamentos pra atender a população.  

O impacto da cirurgia robótica no custo-efetividade da atenção a saúde no sistema brasileiro ainda não pode ser mensurado. No momento em que são poucos os hospitais do país detentores desta tecnologia, prevê-se um longo percurso na definição de parâmetros econômicos. Nos EUA, o custo médio deste procedimento foi calculado em torno de 15% acima do custo da laparoscopia convencional. No Brasil, os valores são ainda maiores. Espera-se que a natural redução de preços após os primeiros anos de sua introdução possam justificar uma maior disseminação da cirurgia robótica.

Os benefícios secundários da videocirurgia foram amplamente comprovados e retratados em pesquisas científicas. No entanto, os cirurgiões estão sempre em busca de novos procedimentos que minimizem ainda mais o trauma cirúrgico. Com o consentimento dos pacientes e sempre em busca de um procedimento cirúrgico menos doloroso, de mais rápida recuperação, com melhor resultado estético, todos estão atrás da “cirurgia invisível”. No início de mais um século, move-se a roda da história pela curiosidade e engenhosidade de médicos e engenheiros pioneiros. O estabelecimento da cirurgia robótica dependerá da ultrapassagem da fase inicial de seu desenvolvimento. Com o mínimo de experimentação humana e com respeito a preceitos éticos, projeta-se um novo patamar para toda a cirurgia.