CARREIRA CIRÚRGICA E A MATERNIDADE

por Prof. Dr. Miguel Nácul

No último século, o Brasil teve um aumento considerável na procura pela medicina como profissão. Para se ter uma ideia, em 1920 eram 14.031 profissionais, enquanto em 2017 o total de médicos no país saltou para 451.777, um crescimento de 2.20%. No mesmo período, a população aumentou de 30.635.605 para 207.660.929 habitantes, uma elevação de 578%. Paralelamente, ao longo destas décadas, o total de médicos cresceu 3,7 vezes mais que o da população em geral, fenômeno que se acentuou com o passar dos anos. Em janeiro de 2018 o Brasil contava com 452.801 médicos, o que representa 2,18 médicos por mil habitantes.Dados apresentados na Demografia Médica 2018, pesquisa realizada pela Associação Médica Brasileira (AMB), apontam que, simultaneamente ao crescimento da população médica está uma mudança no perfil de idade e de gênero desse grupo. Destaque para a aceleração de dois processos: feminização e juvenização da categoria no território brasileiro. A participação cada vez mais significativa do público feminino dentro do contingente de profissionais médicos é uma realidade, representando 45,6% do total, sendo que elas já são maioria entre os médicos mais jovens. No grupo até 29 anos as mulheres são 57,4%, e na faixa de 30 a 34 anos ocupam 53,7%. Ao observar a série histórica da população de médicos conforme o sexo, as mulheres representavam 22,3% em 1910 e 21,5% em 1920. Nos anos seguintes houve um declínio deste percentual, chegando a 13% em 1960. No entanto, 10 anos depois houve um crescimento constante dessa proporção subindo para:

* 23,5% em 1980
* 30,8% em 1990
* 35,8% em 2000
* 39,9% em 2010


“Desde 2004 as mulheres são maioria nas escolas médicas, e desde 2009, a maioria em inscrições nos CRMs. Cada vez estamos mais próximos de seguir a tendência das estatísticas de população no Brasil, em que as mulheres representam mais de 51%”, analisa o presidente da AMB, Lincoln Ferreira.A escalada feminina vem se cumprindo e, atualmente, mulheres são maioria em 18 especialidades médicas. Na Cirurgia Geral, este crescimento é menor, médicas representam 21% dos detentores de título de especialista são do sexo feminino, o que se reproduz em outras especialidades cirúrgicas como Cirurgia Plástica, Cirurgia Pediátrica, Coloproctologia, Cirurgia Vascular e Cirurgia Cardíaca, por exemplo.

Vale destacar que a  residência médica no Brasil passou por várias transformações nos últimos anos. Felizmente são mais ofertas de vagas, ocupadas por um número cada vez maior de mulheres. Segundo a Demografia Médica de 2018, temos 53.776 médicos cursando a residência médica, sendo 3.973 em Cirurgia Geral. Estes estudos estão distribuídos em 4.862 programas, de 809 instituições credenciadas pelo Ministério da Educação. 

Mesmo mais lento, esse crescimento é uma realidade animadora para a ascensão das mulheres na medicina. Atualmente elas são 55% dos que cursam residência médica no Brasil. Além disso, 58,4% têm entre 25 e 29 anos, faixa que conta com maior proporção feminina (61,6% dos residentes dessa faixa etária). É preciso saudar as grandes mudanças culturais e sociais da nossa sociedade, já que não só geraram uma alteração do papel da mulher na família, como uma maior participação no mercado de trabalho em áreas de atuação anteriormente exercidas por homens. No entanto, a simultaneidade do crescimento profissional com a formação de uma família afeta muito mais as mulheres do que os homens. Em pleno século 21 ainda existe o conceito antigo e ultrapassado de que criar filhos e cuidar da casa são atividades essencialmente femininas. Isto certamente leva as mulheres a adiarem a gravidez e, às vezes, até a inviabilizá-la.Artigo publicado recentemente no JAMA Surgery demonstra que cirurgiãs são mais propensas a postergar a gestação, usar tecnologias de reprodução assistida, se submeter a cesarianas não eletivas e sofrer perda de gravidez em comparação com as que não são cirurgiãs. No estudo, fica claro que as exigências de praticar a cirurgia podem colidir com constituir família e manter uma gravidez saudável. 

À medida que as escolas médicas recebem cada vez mais mulheres, até mesmo as especialidades com essência masculina, como a cirurgia, estão começando a se parecer mais com a população em geral. Atualmente, as mulheres representam 38% dos residentes cirúrgicos e 21% dos cirurgiões em atividade nos Estados Unidos. Contudo, os desafios em equilibrar as demandas profissionais da cirurgia com o processo de formação de uma família permanecem complexos. Entre o estigma associado à gestação durante o treinamento cirúrgico e as opções insignificantes de licença-maternidade, muitas mulheres adiam a gravidez até depois de sua residência, ponto em que a idade as torna mais vulneráveis a resultados adversos da gravidez. De acordo com estudo da JAMA Surgery, a idade média para gestar entre cirurgiãs foi de 33 anos. Se comparado com a média nacional nos Estados Unidos, fica em 30 anos para mulheres com ensino superior completo. Um quarto das cirurgiãs pesquisadas usou tecnologia de reprodução assistida, como a fertilização in vitro. Dos bebês nascidos nos EUA a cada ano, menos de 2% são concebidos com tecnologia de reprodução assistida. No estudo, também foi constatado um maior risco de complicações na gravidez para cirurgiãs que continuaram operando por 12 ou mais horas semanais até o último trimestre de gestação. É evidente que a realização de cirurgias é fisicamente mais intensa do que outras tarefas clínicas, pois significa estar de pé, com pouco acesso à alimentação e hidratação. Mais da metade das cirurgiãs pesquisadas trabalham acima de 60 horas por semana durante a gravidez, 37% atendiam pelo menos seis ligações noturnas a cada mês, e apenas 16% reduziram suas horas de trabalho.

“Há uma bravata que acompanha a personalidade cirúrgica. Existe uma cultura de não pedir ajuda, mas isso nos diz que há um risco para a saúde nisso", argumentou Dr. Rangel, um dos coautores do artigo.  Os residentes de cirurgia frequentemente ficam constrangidos em pedir ajuda, uma vez que os colegas devem fornecer cobertura em cima de suas próprias agendas já bem exigentes. Para melhorar este cenário, os autores do artigo recomendam uma série de mudanças nas políticas hospitalares que permitiriam às cirurgiãs solicitar apoio sem medo de reprimendas e ressentimentos. Entre as sugestões destaque para uma boa compensação àqueles que fornecem cobertura e um maior compromisso em trazer outros médicos, enfermeiras e assistentes médicos. Essa iniciativa poderia colaborar quando os residentes e estagiários estiverem sobrecarregados. No entanto, a mudança de cultura necessária para melhor apoiar as cirurgiãs não virá sem uma mudança de política em larga escala, enfatiza o estudo. 

Cuidados que deveriam contemplar os dois sexos. A licença-paternidade varia entre os programas de residência nos EUA, sendo que os residentes do sexo masculino geralmente têm direito à apenas uma semana. Em se tratando das residentes do sexo feminino, muitas recebem seis semanas, incluindo algumas reservadas para férias. Os autores sugerem pelo menos seis semanas de licença-maternidade remunerada, sem contar o tempo de férias, tanto para homens quanto para mulheres. Eles também observaram que, quando os residentes usam seu tempo de férias como licença-maternidade, enfrentam um risco maior de esgotamento. No Brasil a licença-maternidade é de 4 meses, porém, após o retorno, a médica residente deverá recuperar este período de perda de treinamento.

Áreas como a cirurgia, que se baseiam em normas rígidas e rituais de treinamentos extenuantes, podem ser resistentes à mudanças em larga escala. Nas últimas duas décadas, alterações consideradas impossíveis, como limitar o trabalho dos residentes em 80 horas semanais foram estabelecidas, assim como a própria concessão de licença-maternidade. Isso possibilitou a formação profissional em especialidades com treinamento extremamente desgastante e historicamente ocupadas por homens, como as especialidades cirúrgicas. Mas ainda existem muitos obstáculos a serem vencidos pelas mulheres que almejam ser cirurgiãs. Com a derrubada progressiva de fatores de impedimento, a escolha da cirurgia como especialidade pelas mulheres dependerá, então, apenas de seus interesses pessoais.



Referências Bibliográficas

1. Demografia Médica 2019. O perfil médico brasileiro. Acessível em https://amb.org.br/wp-content/uploads/2018/03/DEMOGRAFIA-M%C3%89DICA.pdf

2. Rangel EL, Castillo-Angeles M, Easter SR, et al. Incidence of Infertility and Pregnancy Complications in US Female Surgeons. JAMA Surg. Published online July 28, 2021. doi:10.1001/jamasurg.2021.3301

3. Franco T, Gomes dos Santos E. Mulheres e cirurgiãs. Rev. Col. Bras. Cir. 37 (1), Fev  2010.

4. Paulo D, Assis M, Orofino Kreuger MR. Análise dos fatores que levam mulheres médicas a não optarem por especialidades cirúrgicas. Revista de Medicina da USP V. 99 N. 3 (2020).