APENDICECTOMIAS VIDEOLAPAROSCÓPICAS NO SUS E EM HOSPITAIS PRIVADOS: UM DESEQUILÍBRIO INJUSTIFICÁVEL

por Prof. Dr. Miguel Nácul

A área da saúde é bastante agradecida à evolução tecnológica, visto que proporciona atendimentos mais seguros e superiores, mas nem sempre disponíveis a todos os pacientes. O advento da videocirurgia no final da década de 1980 trouxe um extraordinário avanço para a especialidade cirúrgica. Em pouco tempo essa nova técnica tornou-se padrão ouro para o tratamento de grande parte das doenças em diferentes sistemas orgânicos e especialidades cirúrgicas.


Em 30 anos de ascensão a videocirurgia se disseminou pelo país tanto do ponto de vista tecnológico, pela presença de equipamentos e instrumentais específicos em boa parte dos hospitais, como pela expansão do treinamento já incorporado à residência médica. Em hospitais privados a videocirurgia é a técnica mais comumente utilizada nos mais diferentes procedimentos, em especial para cirurgias abdominais - videolaparoscopias. Infelizmente, a mesma realidade não se reproduz no Sistema Único de Saúde (SUS). Analisando a base de dados do Datasus do Ministério da Saúde,(http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?sih/cnv/qiuf.def), verifica-se procedimentos cirúrgicos em que a videolaparoscopia é a técnica padrão ouro terapêutico, com destaque para colecistectomias e apendicectomias.


Infelizmente, na maioria dos casos, ainda são realizados por técnica aberta, principalmente nas regiões norte e nordeste do Brasil. Para o tratamento da apendicite aguda, a apendicectomia por videolaparoscopia apresenta vantagens evidentes em relação à técnica aberta, em especial, relacionadas à infecções de sítio cirúrgico e incidência de hérnia incisional. Além disso, propicia uma recuperação pós-operatória mais rápida, com menos dor, menor tempo de internação hospitalar e retorno para as atividades profissionais de forma mais precoce, evitando afastamentos laborais maiores que 15 dias. Considerando procedimentos hospitalares do SUS por local de internação e autorizações de internação hospitalar (AIH) aprovadas por região, no período entre janeiro de 2014 e abril de 2021, foram realizadas 765.578 apendicectomias. Deste total, 41.513 foram por videolaparoscopia.

Abaixo, dados por região do país: 

• Região Norte: 79.769, 184 por videolaparoscopia (0,23% dos casos)

• Região Nordeste: 170.829, 4.199 por videolaparoscopia (2,45% dos casos)

• Região Sudeste: 295.230, 15.448 por videolaparoscopia (5,23% dos casos)

• Região Sul: 147.231, 19.524 por videolaparoscopia (13,26% dos casos)

• Região Centro-Oeste: 72.519, 2.158 por videolaparoscopia (2,97% dos casos)


Certamente esses achados estão relacionados a fatores econômicos, populacionais e ações governamentais regionais, expondo um Brasil muito desigual, tanto do ponto de vista geográfico como entre os sistemas público e privado de saúde. O desenvolvimento tecnológico com repercussão na qualidade e variedade cada vez maiores dos equipamentos e instrumentais, somados ao avanço técnico dos cirurgiões,  determinaram uma evolução muito rápida da radiocirurgia, que se tornou altamente especializada. Sendo assim, para exercer a videocirurgia, é necessário um processo de aprendizado bem estruturado e de caráter relativamente complexo.

Se a evolução tecnológica é a responsável pelo incremento na qualidade dos equipamentos e dos instrumentais videocirúrgicos, os cirurgiões evoluíram tecnicamente ancorados em metodologias mais efetivas de treinamento baseadas em simulação. Em artigo publicado anteriormente neste blog (“Videocirurgia avançada - novo patamar necessário para o treinamento em cirurgia minimamente invasiva” ), sustentamos que a incorporação de metodologias para o desenvolvimento de habilidades videocirúrgicas avançadas é o novo patamar a ser alcançado por profissionais e centros dedicados ao ensino da cirurgia.

O mercado de trabalho, cada vez mais solicitante e competitivo, exige profissionais capazes de realizar procedimentos cirúrgicos de alta complexidade por técnicas minimamente invasivas. No entanto, a realidade no SUS se mostra muito diversa ao solicitar ações que possam consolidar e expandir a realização de procedimentos cirúrgicos usuais do dia a dia dos cirurgiões, como a apendicectomia, por técnicas minimamente invasivas. Medidas efetivas trariam repercussão positiva para médicos e pacientes, além de economia para a previdência social relacionada ao menor tempo de afastamento laboral. Cabe às entidades governamentais em diferentes níveis, como federal, estadual e municipal, sociedades de especialidades cirúrgicas, cirurgiões em posição de liderança e responsáveis pelo treinamento de novos profissionais, buscarem estratégias para a implementação definitiva das técnicas minimamente invasivas no SUS.

País de grandes complexidades e contrastes, o Brasil mostra suas faces de primeiro e terceiro mundo na aplicação e universalização de procedimentos cirúrgicos tecnológico-dependentes. Um bom exemplo fica por conta da videocirurgia, que possui potencial de agregar segurança e efetividade ao tratamento das doenças, além de qualidade de vida aos pacientes.

REFERENCIAS:

1. Blog Instituto Simutec (https://institutosimutec.com.br/blog/p/videocirurgia-avancada-novo-patamar-necessario-para-o-treinamento-em-cirurgia-minimamente-invasiva) acessado em 29/06/2021.

2. Fonte: Ministério da Saúde - Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS) (http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sih/cnv/qiuf.def) acessado em 29/06/2021.