Advento, Estabelecimento, Consagração e Evolução da Videocirurgia

por Prof. Dr. Miguel Nácul

ADVENTO, ESTABELECIMENTO, CONSAGRAÇÃO E EVOLUÇÃO DA VIDEOCIRURGIA


A história da medicina expressa uma constante evolução baseada no desenvolvimento técnico e aplicação de novas tecnologias, estimulada pela curiosidade humana e ações de pioneirismo. Remonta a idade antiga o interesse médico pela observação do interior do corpo humano. No passado, a propedêutica se baseava unicamente no exame físico sendo o interior do corpo humano observado apenas pelos seus orifícios naturais.

A endoscopia nasceu com a ginecologia, sendo a vagina o primeiro orifício a ser examinado através de um espéculo. No século XIX, diferentes autores desenvolveram criativas formas de visualização da uretra, bexiga e útero. Entretanto, apenas no início do século XX, com a utilização de novos equipamentos e instrumentais, foi possível o acesso ao interior da cavidade abdominal com instrumentos óticos, introduzidos pelo fundo de saco vaginal ou parede abdominal anterior. Este método, denominado de celioscopia ou laparoscopia, evoluiu significativamente ao longo do século, tornando-se procedimento diagnóstico importante em especial na ginecologia. No entanto, a laparoscopia apresentava limitação da visão do campo operatório para o cirurgião e impossibilidade de acompanhamento conjunto do procedimento por parte do restante da equipe cirúrgica. Por isto, até a década de 1980, a laparoscopia ficou reservada a diagnóstico ou procedimentos terapêuticos simples.

"Apesar das limitações, o ginecologista alemão Kurt Semm da Universidade de Kiel na Alemanha realizou a primeira apendicectomia laparoscópica em 1983, demarcando claramente o início do desenvolvimento da cirurgia minimamente invasiva."

Apesar das limitações, o ginecologista alemão Kurt Semm da Universidade de Kiel na Alemanha realizou a primeira apendicectomia laparoscópica em 1983, demarcando claramente o início do desenvolvimento da cirurgia minimamente invasiva. Novas soluções tecnológicas propiciaram o desenvolvimento de equipamentos que determinaram a expansão das possibilidades do método de diagnóstico à terapêutico. Em 1985, Enrich Muhe realizou em Boblingen também na Alemanha a primeira colecistectomia laparoscópica utilizando um retoscópio modificado denominado de “galloscope”.

A introdução do uso de microcâmeras de vídeo acopladas à ótica possibilitou a visão simultânea da área operada por todos os componentes da equipe. Com este sistema, Philippe Mouret realizou na cidade de Lyon na França em 1987 a primeira colecistectomia por videolaparoscopia, marcando o início de uma grande mudança em relação a abordagem cirúrgica da colecistectomia. A introdução desta nova maneira de operar representou uma quebra de paradigma constituindo-se em um ponto irreversível na evolução da cirurgia. Estabeleceram-se então as condições que propiciariam o surgimento da cirurgia videolaparoscópica com sua rápida e espetacular expansão mundial. Foi assim concretizado, o maior avanço da cirurgia no século XX. A revolução gerada pela colecistectomia videolaparoscópica determinou que essa mesma abordagem passasse a ser utilizada para uma grande variedade de procedimentos. A videolaparoscopia foi incorporando gradativamente o tratamento de diferentes doenças, alcançando status de “padrão-ouro terapêutico” para diversas situações.

O advento dos procedimentos cirúrgicos realizados por videolaparoscopia alcançou não apenas a Cirurgia Geral e a Cirurgia do Aparelho Digestivo, como também as demais especialidades cirúrgicas, alcançando uma projeção importante nesta área. Para que isto fosse possível, o aperfeiçoamento técnico através do treinamento baseado em simulação e o desenvolvimento tecnológico foram parceiros para que os procedimentos minimamente invasivos dominassem o espectro da cirurgia. O incremento na qualidade e variedade dos equipamentos e instrumentais aliados à natural evolução do padrão técnico dos cirurgiões determinaram um rápido avanço do método, o qual se tornou altamente especializado. A realização de procedimentos por este método requer um processo de aprendizagem complexo, organizado e estruturado. Por isso que, cada vez mais, o cirurgião deve colocar em sua rotina de atuação o treinamento baseado em simulação como base fundamental de manutenção e evolução de suas habilidades motoras.