A saúde mental e a Covid-19 (parte II)

por Prof. Dr. Miguel Nácul

Em um dos nossos últimos “posts” do blog do Instituto Simutec abordamos o tema “saúde mental e a COVID-19”, com ênfase no prejuízo à saúde mental de uma população restrita em casa em função das táticas de mitigação determinadas pelas autoridades governamentais. Sobre isto, o MEDSCAPE publicou no último dia 28 de maio de 2020, o artigo “COVID-19: mortes por desespero podem chegar a 75.000 pessoas nos EUA” por Megan Brooks, editora do “centro de Informações sobre o novo Coronavírus SARS-CoV-2” da publicação.


O artigo alerta que até 75.000 norte-americanos podem morrer por suicídio, excesso de consumo de bebidas alcoólicas ou drogas por causa da pandemia de COVID-19 conforme projeções de um novo relatório nacional americano publicado no dia 08 de maio deste ano. O relatório alerta que o número das “mortes por desespero” pode ser ainda maior se os EUA não adotarem medidas contundentes para abordar as questões relacionadas com a saúde mental provocadas pelo aumento do desemprego, pelo isolamento e pela incerteza na evolução da pandemia, de acordo com o relatório do Well Being Trust (WBT) e do Robert Graham Center for Policy Studies in Family Medicine and Primary Care. Benjamin Miller, diretor de estratégia do WBT, relata que, no pior cenário possível, a perspectiva seria de mais 150.000 mortes desnecessárias, caso medidas não sejam tomadas e a situação atual não se altere significativamente. Conforme Benjamin, estas mortes são evitáveis, pois são conhecidas soluções baseadas em evidências. O problema é que, neste cenário de pandemia e incertezas, a carência de recursos dificulta a elaboração de medidas que possam impactar positivamente as comunidades.

Neste estudo, Benjamin e colaboradores combinaram informações sobre o número de mortes por suicídio, consumo excessivo de bebidas alcoólicas e de drogas tomando 2018 como ponto de partida (N = 181.686). Os pesquisadores fizeram projeções dos níveis de desemprego de 2020 a 2029 e, a seguir, utilizaram modelos econômicos para estimar o número anual de mortes adicionais. Em nove cenários diferentes, este número de “mortes por desespero” variou de 27.644 (recuperação rápida, menor o impacto do desemprego nas mortes relacionadas com suicídio, consumo de bebidas alcoólicas e drogas) a 154.037 (recuperação lenta, maior impacto do desemprego neste tipo de morte) com 75.000 sendo o número de caos mais provável. Trata-se um valor muito alto e impactante! Evidentemente, devemos ter muito cuidado com projeções estatísticas durante esta pandemia. Estamos vendo números estratosféricos, divulgados por instituições teoricamente idôneas e de grande expressão acadêmica, mas que se mostram totalmente equivocados, causando tremendos estragos em vários setores da sociedade e de forma global.


Os autores oferecem várias soluções de estratégias institucionais para evitar um surto de “mortes evitáveis”. Entre elas, são salientadas:1 - Combate aos efeitos do desemprego.2 - Criação de vagas de trabalho.3 - Facilitar o acesso ao atendimento na saúde4 - Integrar a saúde mental e o tratamento da dependência química no atendimento primário e clínico, assim como na prevenção. Essas soluções também devem servir como medidas também em “tempos normais” para evitar o uso indevido de drogas ilícitas e bebidas alcoólicas.  

Os autores enfatizam que é hora de o governo federal americano apoiar inteiramente um quadro de excelência em saúde mental e bem-estar, além de investir financeiramente nesta área. O custo, porém, é alto, calculado em cerca de pelo menos 48 bilhões de dólares para manter o sistema atual operante em curto prazo. A razão é que com a pandemia e suas terríveis repercussões sanitárias e econômicas nos Estados Unidos (que tem certa similaridade com a situação brasileira), 92,6% das instituições psiquiátricas tiveram de reduzir suas atividades de algum modo, 61,8% tiveram de encerrar completamente pelo menos um programa e 31,0% tiveram de recusar pacientes. Obviamente que este cenário não é ideal para as pessoas que precisam de um sistema que as ajude neste momento de crise. Em longo prazo, Benjamin e colaboradores calculam em serem necessários 150 bilhões de dólares para uma “enorme” reestruturação do sistema de saúde mental nos EUA. Este montante traria a saúde mental para todas as dimensões do sistema de saúde americano com a criação de novos mecanismos de atendimento – atendimentos em equipe, integrados ao atendimento clínico e comunitário.


Trazida para a realidade brasileira, este outro lado oculto da pandemia que afeta não só o atendimento da doença mental, como projeta outra epidemia de problemas relacionados à saúde mental da população determinará uma sobrecarga ainda maior do sistema de saúde brasileiro, em especial do SUS. A gravidade desta situação estará diretamente relacionada a manutenção do isolamento social prolongado e o grau de retração econômica conseqüente.

BIBLIOGRAFIA:

Galea S, Merchant RM, Lurie N. The Mental Health Consequences of COVID-19 and Physical Distancing: The Need for Prevention and Early Intervention [published online ahead of print, 2020 Apr 10]. JAMA Intern Med. 2020;10.1001/jamainternmed.2020.1562.