A polêmica sobre o uso obrigatório de máscaras pela população

por Prof. Dr. Miguel Nácul

Em 09 de maio de 2020, o governo gaúcho decretou o uso obrigatório de máscara em todo o estado do Rio Grande do Sul dentro de seu plano de distanciamento controlado para o retorno das atividades econômicas e sociais. Em meio a uma pandemia de COVID-19 e suas impressionantes repercussões sanitárias, econômicas e sociais, cada determinação governamental cria mais uma polêmica. Será que o uso disseminado de máscaras pela população é realmente uma medida válida e eficiente neste momento?

Inicialmente precisamos considerar que toda conduta obrigatória determinada pelo governo (municipal, estadual ou federal) gera uma resposta negativa por parte da população, mesmo quando obviamente correta (vide a obrigatoriedade do uso de cinto de segurança ao dirigir, incrivelmente rejeitada inicialmente, especialmente por motoristas profissionais!). Em um Brasil politizado, o uso da máscara tende a ser imediatamente identificado como arbitrário em uma população absolutamente desgastada por um prolongado (e repetidamente estendido) isolamento social. Por outro lado, com a absoluta necessidade de retorno à vida normal, a máscara cumpre função de passaporte em direção a um convívio social restabelecido.

A COVID-19 é uma doença infecto-contagiosa com significativa capacidade de contágio. De acordo com as evidências atuais, o SARS–CoV-2 é transmitido através de gotículas respiratórias e vias de contato. A transmissão de gotículas ocorre quando uma pessoa está em contato próximo (dentro de 1 metro) com uma pessoa infectada,  principalmente através da tosse, espirro ou contato pessoal muito próximo, resultando na inoculação por portais de entrada como a boca, nariz ou olhos. A transmissão também pode ocorrer através de fômites no ambiente imediato ao redor da pessoa infectada, ou seja, por contato com superfícies ou com objetos usados na pessoa infectada (por exemplo, estetoscópio ou termômetro). Trata-se de uma doença ainda pouco conhecida, sem vacinação disponível, sem qualquer tratamento específico eficaz e de letalidade relevante, especialmente para populações de risco. Portanto, a base da prevenção do contágio da COVID-19 é o isolamento social de suspeitos, infectados e contratantes e o afastamento individual, com auxílio de barreiras, à transmissão de infectantes provenientes das vias aéreas. Neste sentido, a máscara tem um potencial preventivo relevante, principalmente em ambientes fechados onde se sabe que a contaminação é muito mais provável. 


Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) atualizou suas recomendações sobre o papel de proteção de máscaras na pandemia de COVID-19. Para conter os contágios, ela agora aconselha a utilização em estabelecimentos públicos cheios. A indicação também vale, em geral, para onde seja difícil manter o distanciamento social como, por exemplo, os transportes públicos e outros lugares fechados e intensamente freqüentados. O objetivo é a que as máscaras sejam usadas tanto para proteção de pessoas saudáveis (para se proteger quando em contato com um indivíduo infectado) quanto para controle de origem (usada por um indivíduo infectado para impedir a transmissão subseqüente). Até o momento, o posicionamento da OMS era que a proteção da boca e nariz só fazia sentido para quem cuidasse de enfermos, não sendo recomendado seu uso em mascáras.


A OMS aconselha os tomadores de decisão (governos) a aplicarem uma abordagem baseada em risco, com foco nos seguintes critérios ao considerar ou incentivar o uso de máscaras para o público em geral:

 - Comunicar claramente o propósito de usar uma máscara, onde, quando, como e que tipo de máscara deve ser usado. Explicar o que o uso de uma máscara pode alcançar e o que não alcançará. 

- Informar / treinar as pessoas sobre quando e como usar máscaras com segurança, ou seja, como colocar, usar, remover, limpar e descartar. 

- Considerar a viabilidade de uso, questões de suprimento / acesso, aceitação social e psicológica (de usar e não usar diferentes tipos de máscaras em diferentes contextos). 

- Continuar coletando dados científicos e evidências sobre a eficácia do uso de máscaras (incluindo diferentes tipos e formas, bem como outras capas faciais, como lenços) em ambientes que não sejam de saúde. 

- Avaliar o impacto (positivo, neutro ou negativo) do uso de máscaras na população em geral (incluindo ciências sociais e comportamentais).

- Comunicar claramente que o uso da máscara faz parte de um pacote de medidas, preventivas e que devem ser reforçadas (ver abaixo).

O uso de máscaras faz parte de um pacote abrangente de medidas de prevenção e controle que podem limitar a propagação de certas doenças virais respiratórias, incluindo a COVID-19. A OMS desaconselha que se confie exclusivamente nas máscaras, as quais são apenas uma entre diversas medidas de precaução, não substituindo o distanciamento nem a higiene manual. O uso de uma máscara isoladamente é insuficiente para fornecer um nível adequado de proteção ou controle da fonte e outras medidas pessoais e comunitárias também devem ser adotadas para suprimir a transmissão de vírus respiratórios. Assim, no contexto da pandemia do COVID-19, recomenda-se que todas as pessoas, independentemente de estarem usando máscaras ou não, devem: 

- Evitar grupos de pessoas e espaços lotados (siga as orientações das autoridades locais). 

- Manter distância física de pelo menos 1 metro de outras pessoas, especialmente daquelas com sintomas respiratórios (por exemplo, tosse, espirros). 

- Realizar a higiene das mãos com freqüência, usando solução à base de álcool se as mãos não estiverem visivelmente sujas ou com água e sabão. 

- Respeitar uma “etiqueta” respiratória, isto é, cobrir o nariz e a boca com um cotovelo dobrado ou lenço de papel ao tossir ou espirrar, descartando o tecido imediatamente após o uso e providenciando a higiene das mãos. 

- Abster-se de tocar sua boca, nariz e olhos.

Em relação ao tipo de máscara que a população deve utilizar, o uso de máscaras médicas na comunidade pode desviar esse recurso crítico dos profissionais de saúde e de outros que mais precisam deles. Máscaras médicas devem ser reservadas para profissionais de saúde e indivíduos em risco, quando indicado (maiores de 60 anos ou com doenças prévias). As novas diretrizes da OMS se aplicam também à forma de fabricação de máscaras não médicas, de tecido, as quais devem ter pelo menos duas camadas de materiais diferentes. 

A OMS oferece as seguintes orientações sobre o uso correto de máscaras, derivadas das melhores práticas em serviços de saúde: 

- Realizar a higiene das mãos antes de colocar a máscara. 

- Colocar a máscara cuidadosamente, garantindo que ela cubra a boca e o nariz, ajustando a ponte nasal e a fixando com segurança para minimizar os espaços entre o rosto e a máscara. - Evitar tocar na máscara enquanto a estiver usando. 

- Remover a máscara não tocando na frente da máscara, mas desamarrando-a por trás. 

- Após a remoção ou sempre que uma máscara usada for tocada inadvertidamente na sua parte anterior, limpar as mãos com liquido à base de álcool ou sabão e água. 

- Substituir as máscaras assim que ficarem úmidas por uma nova máscara limpa e seca. 

- Não reutilizar máscaras de uso único. Descartar máscaras de uso único imediatamente após a remoção.

Não temos evidências definitivas para saber exatamente qual é o efeito do uso de máscaras em todas as situações. Para a população em geral, as máscaras de pano podem trazer algum benefício, tanto na disseminação quanto no recebimento do vírus. No entanto, é provável que o benefício seja modesto. Não deve ser considerada uma proteção total, mas apenas uma maneira de reduzir a chance de se espalhar o vírus. Devemos salientar, porém, que a redução no risco de propagação ocorre apenas se as pessoas usarem suas máscaras de maneira consistente e adequada. Quando não, a pouca proteção que existe desaparece. Temos observado que boa parte das pessoas não usa suas máscaras corretamente. Muitas pessoas têm a máscara abaixo do nariz, o que é inútil. Ou a máscara está solta. Mas, de longe, a maior violação do protocolo é que as pessoas tocam sua máscara ou a removem temporariamente para ajustá-la freqüentemente. Isto é incompreensível! O problema é que as pessoas não estão acostumadas a usar máscaras e nunca foram treinadas para esta prática. Além disso, as máscaras podem ser desconfortáveis. Como elas tapam o rosto, impedindo que a pessoa possa tocá-lo (o que fazemos com muita freqüência), ele coça. Então as pessoas estão constantemente mexendo em suas máscaras. O problema é que isso pode ser pior que inútil. Existem estudos que demonstram presença de vírus fora das máscaras. Portanto, tocar a máscara pode ser uma boa maneira de espalhar o vírus. Por fim, existe o problema da "falsa sensação de segurança". As pessoas podem achar que não precisam ser rigorosas com o distanciamento social porque estão usando uma máscara.

A mensagem final é: use máscaras sempre que estiver em público ou precisar ser exposto a outras pessoas - mas USE A MÁSCARA ADEQUADAMENTE, não toque ou ajuste, não a tire ou abaixe por breves instantes. Além disso, entenda que essa é apenas uma proteção modesta. Estatisticamente, isso pode ajudar a reduzir a propagação da pandemia, mas não é uma proteção total. Portanto, você ainda precisa seguir recomendações estritas para evitar a propagação - o distanciamento físico e a lavagem das mãos são os mais importantes. Além disso, se você estiver doente, pode tossir o vírus através da máscara. Portanto, procure tossir no cotovelo e não em outras pessoas ou no meio ambiente. Mas o mais importante é que, se você acha que está doente, procure atendimento médico imediatamente. 

Referências:

Página OPAS/OMS. Acessível em:

https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6138:covid-19-oms-atualiza-guia-com-recomendacoes-sobre-uso-de-mascaras&Itemid=812
Do Masks Work? Let’s review the evidence for the effectiveness of wearing face masks during a pandemic. Post de Steven Novella. (Editor do Science-Based Medicine e neurologista na Yale University School of Medicine. Acessível em https://sciencebasedmedicine.org/do-masks-work/