"Novo normal" ou "de volta para o passado"?

por Prof. Dr. Miguel Nácul

Texto: Dr. Miguel Nácul

O arrefecimento da pandemia de COVID-19 em grande parte dos países da Europa ocidental, estados americanos, assim como nas maiores cidades brasileiras traz a discussão o tema recorrente do “mundo pós-pandemia”. Como será o “novo normal”, questiona-se. Ou será que após um maior ou menor período, a pandemia e suas lições serão esquecidas e retornaremos a um patamar anterior a março de 2020?

Como isto repercutirá na área da saúde, em especial na cirurgia? Podemos utilizar vários parâmetros para tentar responder essas questões. A análise histórica é um deles. Todo grande evento histórico, seja uma epidemia, guerra, tragédias naturais, atentado terrorista, tendem a determinar significativas mudanças em todas as áreas – políticas, sociais, econômicas, comportamentais, culturais. Evidentemente, a área da saúde expressa mudanças ao longo do tempo, não necessariamente imediatas. A história também nos ensina que muitas lições não são aprendidas e erros são repetidos. Isto ficou muito evidente no combate a pandemia de COVID-19, quando o aprendizado gerado pela experiência com outras pandemias (1918, 57, 68, 2003, 2009), foram relevadas, em especial em relação a medidas de intervenção não farmacológicas (populacionais).Focando na área da saúde, duas situações parecem se estabelecerem neste momento: o uso da telemedicina no atendimento em saúde e a utilização de plataformas virtuais para o ensino.

A urgência da pandemia resolveu questão relativa à normatização da telemedicina que se estendia indefinidamente no Brasil. A tática de isolamento social prolongado e a óbvia permanência de outras doenças criou a necessidade de disponibilizar esta tecnologia para o atendimento de pacientes em consultório. Planos de saúde pequenos e de grande porte, criaram plataformas para o atendimento dos seus pacientes. A telemedicina também vem sendo utilizada para discussão de casos clínicos em ambientes restritivos como UTIs, assim como o contato de familiares e amigos com pacientes internados. Uma vez vencida a etapa crítica da pandemia, a telemedicina será reavaliada pelo Conselho Federal de Medicina e normatizada definitivamente. No entanto, não há chance de retrocesso na sua incorporação às atividades médicas. Os médicos terão que se adaptar ou serão “engolidos” pelo avanço da história.

Já a impressionante evolução na qualidade, recursos e funcionalidade de plataformas virtuais levaram a um tsunami de encontros científicos, incluindo congressos de maior porte. Mesmo que tenha contribuído para uma melhor informação e discussão médica neste momento, o excesso de “lives” causa um verdadeiro “burn out” educacional em um momento de muitas informações sobre a pandemia e suas diversas implicações. Este modelo de atividade científica virtual sinaliza senão o fim, mas uma alteração muito importante para a organização de eventos científicos presenciais, principalmente de grande porte, os quais estarão claramente prejudicados nestes meses (e talvez, anos) pós COVID-19. No final, devemos entender melhor e utilizar esta ferramenta para uma interação continuada e mais eficiente dentro de cada área de atuação da medicina.

A telemedicina e as reuniões científicas virtuais trazem alterações nas atividades médicas. Mas também a pandemia deve gerar outras alterações nas nossas práticas profissionais.

A primeira é uma ainda maior preocupação com a limpeza das mãos e do ambiente por parte das equipes de saúde. A rotina rigorosa de lavagem e antissepsia das mãos definitivamente será incorporada por todos os profissionais de saúde como ação básica não somente de prevenção de infecções hospitalares, como também de doenças infecto-contagiosas. A frequência de utilização de máscaras provavelmente aumentará em ambiente hospitalar, com foco na prevenção da contaminação médica e dos pacientes por doenças de contágio por via aérea. Outra cultura que terá que ser modificada envolve profissionais de saúde com sintomas de alguma doença (mesmo leves) que deverão ser afastados do atendimento a pacientes. Medida surpreendentemente pouco utilizada no nosso meio, principalmente quando se refere a doenças respiratórias como gripes e resfriados, o afastamento preventivo do profissional doente traz benefícios importantes não só a saúde do profissional, mas principalmente evita disseminação de doenças.

Outra questão que se estabelecerá será um maior rigor na avaliação de doenças infecciosas, em especial respiratórias, em pacientes a serem submetidos a cirurgias eletivas e mesmo para urgências. O preparo pré-operatório deverá ser mais valorizado e técnicas minimamente invasivas e não invasivas se sobressairão ainda mais. A proteção da equipe de saúde deverá ser valorizada com a utilização de EPIs mais completos e rotinas mais rígidas de proteção. Em etapas críticas como a intubação traqueal em anestesia geral, desparamentação e cuidados com a fumaça cirúrgica produzida por eletrocirurgia, táticas mais rígidas de proteção serão estabelecidas. Neste ponto, a utilização rotineira de filtros no insuflador de CO2 e para controle de perdas do pneumoperitônio, assim como cuidados técnicos para que se evite desinsuflações súbitas deverão ser incorporadas na rotina. A cirurgia robótica, que afasta parte da equipe cirúrgica do paciente (substituídas pelos braços robóticos), deve se fortalecer.

Entre otimismo e pessimismo, existe um meio termo que deverá ser porto seguro para onde devemos seguir. Aproveitar com sabedoria soluções e ideias inteligentes e incorporar lições aprendidas sobre como não proceder no combate à uma doença infecto-contagiosa epidêmica devem ser o centro da nossa percepção. Melhorar as nossas práticas profissionais em relação a proteção dos pacientes da equipe de saúde é atitude fundamental. Que o “NOVO NORMAL” seja um “melhor” normal e não se torne, em um curto período, uma simples “VOLTA PARA O PASSADO”.